Quinta, 18 de Outubro de 2007
Incentivos ao cinema latino

Primeiro foi a Venezuela, com a Villa del Cine e os incentivos governamentais à produção cinematográfica nacional. Agora, o Chile anuncia o lançamento de um programa de internacionalização do seu audiovisual.

A iniciativa, anunciada durante a 14ª edição do Festival de Cine de Valdivia, é da Corporación de Fomento de la Producción de chile (Corfo), que anunciou o investimento inicial de 150 mil dólares para a criação de um estudo que ajude a identificar oportunidades de negócios para o cinema nacional.

Estará finalmente crescendo o interesse e estarão surgindo idéias concretas para fomentar os cinemas do continente?

 
   
 Quarta, 17 de Outubro de 2007
Prepare-se para os latinos da Mostra Internacional de SP

São Paulo já está pulsando com a 31ª edição da Mostra Internacional de Cinema, que começa na próxima sexta-feira, dia 19.10, e vai até 01.11 com cerca de 350 títulos. 

A abertura da mostra este ano é latina: O passado, co-produção Brasil-Argentina do diretor Héctor Babenco, foi o filme escolhido. Como sempre, os títulos programados dão uma volta ao mundo – e sobretudo nesta edição, com a inclusão  de longas de países distantes cinematograficamente para os brasileiros, como Burkina Faso e Turquia.

Para os amantes do cinema do subcontinente, a Latina preparou um guia com a seleção completa de filmes latino-americanos. O destaque em quantidade de películas latinas programadas vai para o México (com 12), seguida da Argentina (com sete), como era de se esperar (sem contar, é claro, a farta seleção nacional).

As boas notícias: a presença de um documentário boliviano, dois filmes equatorianos e dois colombianos. As críticas: não tem um só título cubano, peruano ou chileno na programação. E tampouco de países da América Central, como Guatemala e Porto Rico – que competiram com novas obras em festivais recentes. Além destes buracos, do México será bastante sentida a ausência do celebrado Luz silenciosa, de Carlos Reygadas.

Confira a programação latino-americana da Mostra de São Paulo abaixo, com destaques da Latina para as mais imperdíveis (pra quem tem pouco tempo!).

PROGRAMAÇÃO LATINA DA MOSTRA

Argentina (7 filmes ao total)

LAS VIDAS POSIBLES, Sandra Gugliotta
O FILME DA RAINHA, Sergio Mercúrio

Em co-produção com: Brasil-Itália-Inglaterra

NASCIDO E CRIADO, Pablo Trapero (foto)
É o terceiro filme do celebrado diretor – um dos responsáveis pela buena onda que vive o cinema argentino desde meados dos anos 90 (e que veio se incrementando desde então). O bom de Trapero é fazer de cada película uma proposta diferente das anteriores, sempre mantendo coerência a partir do estilo de narração intimista. Desta vez, para deleite ainda maior, a fotografia impressiona mais.

Em co-produção com: Espanha

O SINAL, Ricardo Darín / Martín Hodara
Sem dúvida, curioso ver Darín – ex-galã de telenovelas argentinas, depois convertido em o principal protagonista de filmes marcantes deste país – a cargo da direção. Pois as críticas à estréia por detrás das câmaras é, em geral, positiva. O filme tem estilo noir, um dos gêneros favoritos do ator.

XXY, Lucia Puenzo
Foi corajosa a filha de Luis Puenzo (único ganhador argentino do Oscar com A história oficial, em 1985) em sua estréia na direção, optando por um tema difícil de tratar narrativamente como o hermafroditismo. Pois a protagonista (a estreante Ines Efrón) segura muito bem a onda e, apesar de algumas cenas menos bem construídas, o filme vale a pena.

Em co-produção com: França

LA LEÓN, Santiago Otheguy

Em co-produção com: França-Alemanha

EL OTRO, Ariel Rotter
O segundo filme de Rotter fala da possibilidade de ser outro, tomar a personalidade de alguém. Foi premiado no Festival de Berlim (melhor filme pelo júri e melhor ator) e em dois festivais europeus mais.

Bolívia

EL ESTADO DE LAS COSAS, Marcos Loayza
Basta saber que o filme é da Bolívia – país sobre o qual pouco sabemos, sobretudo em termos de cinema – para querer assistir. Mas esse, além do que, é um documentário que trata de temas que revelam “o estado das coisas” atualmente no país a ponta de entrevistas com líderes sociais e políticos e intelectuais – além de outros personagens tipicamente “andinos”, como já mencionou o diretor.

Brasil (74 ao total)

5 FRAÇÕES DE UMA QUASE HISTÓRIA, A. Mendz, C.Azzi, C.Abud, G.Fiúza, L.Gontijo, T.Bahia
A CASA DE ALICE, Chico Teixeira
A IDADE DA TERRA, Glauber Rocha
A VIA LÁCTEA, Lina Chamie
AINDA ORANGOTANGOS, Gustavo Spolidoro
ANDARILHO, Cao Guimarães
ANTONIA, Tata Amaral
À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, José Mojica Marins
BALADA DE UM FILME PORNOGRÁFICO, Anita da Silveira
BRIGADA PÁRA-QUEDISTA, Evaldo Mocarzel
CAMINHONEIROS, Rodrigo Meirelles, Patricia Oriolo, Juarez Malavazzi Jr.
CASTELO RÁ-TIM-BUM - O FILME, Cao Hamburguer
CINE GIBI - O FILME - TURMA DA MÔNICA, José Márcio Nicolosi
CONDOR, Roberto Mader
CORPO, Rossana Foglia, Rubens Rewald
DIÁRIO DE SINTRA, Paula Gaitán
ELISE, Fabrício Bittar
ELKE, Julia Rezende
ESPETO, Guilherme Marback, Sara Silveira
ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER, José Mojica Marins
ESTAMIRA PARA TODOS E PARA NINGUÉM, Marcos Prado
ESTÓRIAS DE TRANCOSO, Augusto Sevá
É O QUE VOCÊ USA, Jayro Bustamante
FLY, Marcio Salem
FUGA SEM DESTINO, Afonso Brazza
GAROTO CÓSMICO, Alê Abreu
HERÓIS DA LIBERDADE, Lucas Amberg
ILUMINADOS, Cristina Leal
INDO.DOC, Leondre Campos, André Pires
JARDIM ÂNGELA, Evaldo Mocarzel
JOGO DE CENA, Eduardo Coutinho
JUÍZO, Maria Augusta Ramos
JURANDO QUE VIU A PERIQUITA, JOÃO MARCOS DE ALMEIDA
LÍNGUA DE BRINCAR, Gabriel Sanna, Lucia Castello Branco
LUCRECIA, CRISTIANO BURLAN
MEMÓRIA PARA USO DIÁRIO, Beth Formaggini
MENINO MALUQUINHO, Helvécio Ratton
MENINO MALUQUINHO 2, A AVENTURA, Fabrizia Pinto e Fernando Meirelles
MEU BRASIL, Daniela Broitman
MEU NOME É DINDI, Bruno Safadi
MUTUM, Sandra Kogut
NOME PRÓPRIO, Murilo Salles
O ANO EM QUE MEU PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, Cao Hamburger
O CINEMA DOS MEUS OLHOS, Evaldo Mocarzel
O CRIME DA ATRIZ, Elza Cataldo
O ENGENHO DE ZÉ LINS, Vladimir Carvalho
O GRÃO, Petrus Cariry
O GRILO FELIZ, Walbercy Ribas
O SIGNO DA CIDADE, Carlos Alberto Riccelli
OLHO DE BOI, Hermano Penna
OS QUATRO ELEMENTOS EM SI OU O GURU SELVAGEM, André Martinez
OTÁVIO E AS LETRAS, Marcelo Masagão
PEQUENAS HISTÓRIAS, Helvécio Ratton
PINDORAMA - A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS SETE ANÕES, Roberto Berliner, Leo Crivelare, Lula Queiroga
PQD, Guilherme Coelho
PROCURANDO JORGE MAUTNER, Rodrigo Bittencourt
R-EXISTÊNCIA – MULHERES DO SUL, Marco Pasquini
RÉQUIEM, Felipe Duque
RITA CADILLAC, A LADY DO POVO, Toni Venturi
SEM CONTROLE, Cris D’Amator
SILÊNCIO, Sérgio Borges
SÓ POR HOJE, Roberto Santucci
TAINÁ, UMA AVENTURA AMAZÔNICA, Tânia Lamarca
TRANSE CONFIANTE / CONFRONTANDO A VIDA, Ines Cardoso
URUBUS TÊM ASAS, Marcos Negrão, André Rangel
VALSA PARA BRUNO STEIN, Paulo Nascimento
VERÃO, Luiz Gustavo Cruz

Em co-produção com: Alemanha

DESERTO FELIZ, Paulo Caldas

Em co-produção com: Argentina

O PASSADO, Hector Babenco

Em co-produção com: Chile

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?, Guilherme de Almeida Prado

Em co-produção com: Cuba-Espanha

A ILHA DA MORTE, Wolney Oliveira
A estréia em ficção do cineasta ceraense é ambientada em Cuba e falada em espanhol. Conta a história de uma família de Havana que se vê obrigada a fugir da perseguição policial ao pai, um militante da revolução comunista. Interessante por se tratar da aproximação entre as duas Américas Latinas – a portuguesa e a hispânica – em termos de produção.

Em co-produção com: Estados Unidos

O ÚLTIMO QUARTO DE HORA, Rodrigo Assad

Em co-produção com: França-Uruguai

MARÉ, NOSSA HISTÓRIA DE AMOR, Lucia Murat

Em co-produção com: Itália

ESTÔMAGO, Marcos Jorge

Colômbia

IMPÉRIO DE ESMERALDA, Aida Martinez Pineda

Em co-produção com: Brasil-Estados Unidos

PERSONAL CHE, Douglas Duarte, Adriana Mariño
Nada mais latino que a figura de Che Guevara, mesmo quando despojada de toda militância e revolução. Este documentário trata do mito criado em torno do argentino em doze países diferentes, através da voz de adoradores. E tenta responder a pergunta: afinal, o que é hoje o Che?

Equador

DEFENSORES DO PARAÍSO, Yoram Porath
ESAS NO SON PENAS, Anahí Hoeneisen, Daniel Andrade
Depois de Qué tan lejos, que venceu a 2ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de SP em julho passado, esse é o outro filme equatoriano mais comentado dos últimos meses (e festivais). Trata do reencontro de cinco mulheres ao redor dos 30, 14 anos depois de ficar sem se ver.

México (12 ao total)

DÉFICIT, Gael García Bernal
DOS ABRAZOS, Enrique Begné
MAUS HÁBITOS, Simón Bross
MEJOR ES QUE GABRIELA NO SE MUERA, Sergio Umansky
MENTIRAS, NICK HIGGINS
NACIDO SIN, Eva Norvind
O BÚFALO DA NOITE, Jorge Hernandez Aldana
PANCHO VILLA, A REVOLUÇÃO NÃO ACABOU, Francesco Taboada Tabone
UNA RECETA ROJA PARA COCINAR CRUSTACEOS, Eun Hee Ihm
¡FIRMES CARNAL!, Octavio Gasca

Em co-produção com: França-Espanha

PARTES USADAS, Aarón Fernández

Em co-produção com: Inglaterra-Canadá

COCHOCHI, Israel Cárdenas, Laura Amelia Guzmán

Uruguai (em co-produção com Brasil-França)

O BANHEIRO DO PAPA, Enrique Fernández, César Charlonne
É um dos pré-candidatos estrangeiros ao Oscar 2008 e, apesar de isso não importar, vale a ocasião para dizer que o filme, sim, merece ganhar. Ótima fotografia de Charlonne, parceiro de câmara de Fernando Meirelles. O filme tem, além de tudo, o atrativo argumento de que uma cidade uruguaia se prepara com todo o tipo de negócios para a chegada do papa João Paulo II.

Venezuela

ELIPSIS, Eduardo Arias-Nath
POSTALES DE LENINGRADO, Mariana Rondón
É outro pré-candidato ao Oscar. Êxito na Venezuela e bastante comentado festivais afora, o filme dá um tratamento lúdico e infantil à perseguição a uma mãe militante e sua filha, em tempos de repressão.

Por Camila Moraes

 Terça, 16 de Outubro de 2007
Cine latino em "curtas" VII

Uruguai luta por lei de cinema; Tropa de Elite é consagrado o mais recente blockbuster do Brasil; e Festival de Bogotá premia dois filmes brasileiros. Confira as notícias e deixe seus comentários!

:: Ley de cine no Uruguai
Por demanda dos profissionais de cinema, que até hoje não dispunham de apoio para a produção e distribuição de suas obras, o Parlamento do Uruguai irá debater um projeto de lei que propõe a criação de uma lei de incentivo ao cinema - incluindo a criação de um fundo de um milhão de dólares para subsidiar filmes nacionais. Se for aprovada, a lei será administrada pelo Instituto Nacional del Audiovisual, ligado ao Ministério de Educação e Cultura, com o apoio de uma comissão julgadora.

Foto: cena de O banheiro do papa, do diretor uruguaio César Charlonne. O filme, produzido por iniciativa particular, é vencedor de prêmios em vários festivais e irá defender o Uruguai na disputa estrangeira do Oscar 2008.

:: Blockbuster brasileiro
Se é polêmica o que faz bilheteria gorda, o filme Tropa de Elite, de José Padilha, está seguindo à risca a regra. Em duas semanas, o controverso longa, que trata da atuação de um grupo de policiais de elite nas favelas do Rio de Janeiro (segundo o ponto-de-vista de um policial “honesto”), foi visto por 700 mil espectadores. Os dados oficiais obviamente não dão conta do fenômeno de pirataria que faz parte da história do filme, muito antes de seu lançamento. Por tratar o tema da violência urbana no Rio de maneira tão plana, Tropa de Elite vem sido acusado de fascista – e de ter má qualidade – por críticos em geral. Veja o trailer abaixo e opine sobre o filme nos comentários!

:: Cinema brasileiro na Colômbia
O Brasil está bem cotado na Colômbia, sobretudo quando o assunto é cinema. Depois da segunda edição da mostra de cine brasileiro – organizada pelo Consulado Brasileiro em Bogotá com curadoria do Festival do Rio e que circulou pelas principais capitais colombianas –, o XXIV Festival de Cine de Bogotá consagrou vencedores dois filmes brasileiros em 11.10. Proibido proibir (2007; veja o trailer abaixo), de Jorge Duran, levou o Precolombino de Oro, o prêmio máximo, enquanto Mutum (2007), de Sandra Kogut, arrematou o Precolombino de Plata. Bastante celebrado festivais afora, Mutum ganhou prêmios em Cannes-2007 e foi vencedora do Festival do Rio deste ano. Veja fotos e informações do filme no site oficial.

 Segunda, 15 de Outubro de 2007
Del lado de allá (outubro): Histórias de crono-crimes e de famas (crono-crônica parcial do Festival de Stiges 07)

Del lado de allá, a coluna intermitente de Alberto Ramos, diretamente da Espanha

Histórias de crono-crimes e de famas (crono-crônica parcial do Festival de Stiges 07)

De 04 a 14.10, teve lugar em Sitges (município costeiro mais ou menos próximo a Barcelona), a 40ª edição do Festival Internacional de Cinema de Catalunya, anteriormente conhecido como Festival de Cinema Fantàstic de Sitges.

Eu gostaria de fazer uma crônica geral sobre os filmes projetados, mas somente tive chance de ver cinco. E entre eles, somente um é latino-americano. Tres minutos (foto abaixo) é o primeiro longa-metragem do argentino Diego Lublinsky. Ainda que no IMDb figure como único autor do roteiro, em um bate-papo anterior à exibição do filme, ele assegurou que o escreveu em colaboração com sua mulher. Também disse que se alegrava de que ela estivesse presente no festival, “assim como seu novo marido”. Com este golpe de efeito, mais de uma pessoa esperaria uma comédia na linha de Woody Allen. Mas Tres minutos é um filme de corte fantástico, gênero que é predominante no festival.  Uma cara fábula sobre a velocidade, protagonizada por um repórter televisivo (Nicolás Pauls) e uma jovem pianista (Julieta Zylberberg, de A menina santa), ambos tão acelerados que acabarão vivendo uma história de encontros e desencontros à margem do tempo.



Outra obra prima onde jogam com o tempo é a espanhola Los Cronocrímenes, escrita y dirigida por Nacho Vigalondo, cineasta indicado ao Oscar pelo curta-metragem 7:35 de la mañana. Com somente cinco atores (Karra Elejalde, Candela Fernández, Bárbara Goenaga, Juan Inciarte e o próprio diretor) e bem poucas locações, Vigalondo constrói com precisão de um relojoeiro uma história de viagens no tempo. Más que um clássico, Los Cromocrímenes está destinada a se converter em um paradigma do subgênero temporal; e, se ninguém dá remédio, em um filme maldito: apesar de ter sido premiado com o troféu de melhor filme no Fantastic Fest de Austin (Texas), ainda não tem distribuição na Espanha. É mais: já se especula que chegará às salas em forma de remake norte-americano, curioso paradoxo espaço-temporal, signo dos novos tempos (leio no blog de Vigalondo que em Sitges há mais filmes espanhóis com promessa de remake: El orfanato, REC e El rey de la montaña).

Los Cromocrímenes tem um título parecido a outro debut de longa: o de Guillermo del Toro, com Cronos, filme que também foi apresentado em Sitges, tempos atrás. Del Toro é, aliás, produtor de El orfanato, dirigido por Juan Antonio Bayona (outro debutante), escrito por Sergio G. Sánchez e protagonizado por Belén Rueda (Mar adentro). Adoraria opinar sobre a obra, mas ainda não a vi. Assim que vou compensá-lo com uma anedota: ano passado participei de um curso de roteiro e, em alguns momentos, escutava crianças proferindo gritos de terror. A explicação: em uma sala ao lado, estavam fazendo casting para El orfanato. Adivinham o gênero do filme?

Até aqui, os cronopios. De agora em diante, as famas:

Fama nº 1: a de Woody Allen, que apresentou em Sitges seu terceiro filme londrino. Se Match point foi um terremoto de grande magnitude, Cassandra’s dream é uma réplica de menor intensidade. Mas é um filme mais que notável. (Falando de replicantes, o cartaz do festival é uma homenagem a Blade runner, que apresentou em Sitges sua terceira – e definitiva? – montagem).

Fama nº 2: a de Wai-keung (Andrew) Lau e Siu Fai (Alan) Mak, reconhecidos no occidente graças à trilogia em que está baseado o filme Infiltrados, de Scorsese, e que atacam de novo com Confession of pain (Seung sing). Felix Chong e o próprio Mak são os roteiristas deste thriller melodramático e melancólico, ambientado em Hong Kong e com um potente merchandising da cerveja espanhola San Miguel. Apesar de que nessas terras é mais provável que nos tentem vender uma Budweiser: já se percebe no horizonte outro remake com Leonardo DiCaprio.

Fama nº 3: a de Takeshi Kitano, que, com Glory to the filmmaker! (Kantoku Banzai!), realizou uma particular versão do cinema de paródias. Uma coqueteleira onde cabe de tudo: desde os gêneros do cinema japonês (de Ozu a The ring) à filmografia do próprio Kitano, passando pela cabeçada de Zinedine Zidane na última Copa do Mundo. Conclusão: se fosse obra de um cineasta novato, não teria sobrevivido à lapidação; mas tratando-se do Sr. Takeshi talvez tenha melhor sorte (pessoalmente, eu o perdôo pelos bons momentos que me fez passar com Fûun! Takeshi Jô, histórico concurso televisivo em que os participantes eram submetidos a provas tais como esquivar de disparos de canhão, cruzar um rio cheio de hambúrgueres gigantes e ir de cara a uma tela de aranha).

Enfim, esses são os filmes que vi. Qualquer parecido com o ganhador (The fall, melhor filme) é pura fantasia (as apostas do Oscar me saem melhor; podem perguntar pra Camila).



Spot do Sitges 07, criado pela agência Vitruvio Leo Burnett.

Tradução: Camila Moraes.

 

 Quinta, 11 de Outubro de 2007
Cine latino em "curtas" VI

Notícias rápidas sobre o cinema latino. Brasil assina acordo de co-produção com a Itália; anuncia-se grande retrospectiva do cinema colombiano em Bogotá; e termina o festival de Valdivia, com novidades sobre o cinema chileno. Confira!

:: Cinema da América Latina na mira dos italianos
Além da Argentina, o Brasil também irá co-produzir oficialmente com a Itália. Foi anunciado durante o Festival do Rio, encerrado em 04.10, o acordo assinado entre os dois países para a criação de um fundo de desenvolvimento de projetos. A finalização do processo, que já aconteceu em Buenos Aires por iniciativa do INCAA, acontecerá durante o Festival de Roma, no final deste mês. Quem está por trás das iniciativas pela aproximação com o cinema latino é o Istituto Luce e o Cinecittá Holding.

:: Exposição recorre mais de um século de cinema na Colômbia
Em Bogotá, tem estréia para o dia 18.10 a exposição que homenageará o cinema colombiano. A mostra, que termina em janeiro do ano que vem, inclui vários eventos organizados pelo Museo Nacional de Colombia, a Fundación Patrimonio Fílmico Colombiano e o Ministério de Cultura. “¡Acción! Cine en Colombia” reúne imagens, documentos, objetos e outros materiais usados em filmes nacionais e foi divida em seis etapas históricas. Saiba mais no site do Ministério colombiano.

:: Festival de Cine de Valdivia: homenagens e filmes chilenos pra ficar de olho
Terminou ontem, 10.10, a 14ª edição do Festival de Cine de Valdivia, no Chile, que homenageou o diretor e cantor argentino Leonardo Favio – um dos realizadores mais importantes do país durante os anos 70, autor de nove filmes (entre eles, Gatica, el mono e Crónica de un niño solo) – e a cinematografia brasileira, com uma mostra não competitiva que incluiu filmes como Deus e o diabo na terra do sol e Central do Brasil. Os ganhadores nacionais – 199 recetas para ser feliz, de Andres Waissbluth, Mirageman, de Ernesto Díaz, e Lo bueno de llorar (foto), de Matias Bize – estão entre os novos filmes chilenos pra ficar de olho. Saiba mais no site oficial do evento.

 Terça, 09 de Outubro de 2007
Festivais: passou Rio, agora vem São Paulo

Passado o agito em torno ao Festival do Rio, que terminou na última quinta-feira, 04.10, as atenções do cinema no Brasil se voltam à Mostra Internacional de São Paulo, que chega agora à sua 31ª edição.

O Rio entregou seu principal prêmio – o troféu Redentor – a Mutum, adaptação de uma novela de João Guimarães Rosa que é o primeiro longa da diretora Sandra Kogut. Em maio, o filme venceu também a Quinzena de Realizadores de Cannes. Já Estômago, de Marcos Jorge, foi o eleito do público, além de levar troféus por melhor direção, melhor ator (João Miguel) e uma menção especial ao ator Babu Santana. A elogiada Carla Ribas, de A casa de Alice, ganhou como melhor atriz. Na categoria documentários, Condor, de Roberto Mader, foi eleito o melhor, enquanto Cao Hamburger foi escolhido melhor diretor por seu Andarilho. Novamente segundo o público, o melhor documentário do ano é Memória para uso diário, de Beth Formaggini.

Na categoria dos (hispano-) latinos, Luz silenciosa, do mexicano Carlos Reygadas, foi o vencedor. O filme foi celebrado em Cannes-2007 e já venceu vários prêmios em distintos festivais. O Prêmio de personalidade latino-americana de cinema foi de Fernanda Montenegro, por sua atuação em O amor nos tempos do cólera. Os demais resultados podem ser conferidos no site oficial do evento.

São Paulo larga em 19.10

Com a proposta de discutir a crise da cinefilia – “Nós, críticos, estamos perdendo a credibilidade", disse Leon Cakoff –, a 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai exibir cerca de 400 filmes entre 19.10 e 01.11. O diretor argentino radicado no Brasil Héctor Babenco é quem assina – e protagoniza como “homem-placa” – o novo cartaz do evento (foto). Seu filme O passado, com Gael García Bernal no papel principal, será o filme de abertura da mostra, a ser exibido no Auditório do Ibirapuera no próximo dia 18. Gael deverá comparecer à Mostra para a divulgação de seu longa, Défict.

Já a cerimônia de encerramento acontecerá no Memorial da América Latina, dia 01.11, às 21 horas, com a primeira exibição no Brasil de No country for old men, o novo filme dos irmãos Joel e Ethan Coen. Entre as novidades, está que o escritor, crítico e atual diretor da Cinemateca Francesa, Serge Toubiana, é quem vai coordenar os debates em torno da questão da crise da cinefilia. Da programação, farão parte, além dos títulos novos, as retrospectivas: Jia Zhang-Ke, Claude Lelouch e Jean-Paul Civeyrac.

A programação oficial ainda não foi divulgada. Saiba mais no site oficial.

Por Camila Moraes

 Sexta, 05 de Outubro de 2007
A collage de Luis Ospina sobre os sonhos dos 60 e 70

Un tigre de papel é o nome do novo documentário do realizador colombiano Luis Ospina, a estrear nas salas da Colômbia agora no começo de outubro. No filme, Ospina - nascido em Cali e reconhecido por películas importantes para a cinematografia colombiana, como Soplo de vida - constrói a radiografia da vida do curioso artista Pedro Manrique Figueroa, precursor da collage na Colômbia, nascido em 1934.

A partir do misterioso desaparecimento do personagem em 1981, o filme aborda questões que envolviam o pensamento artístico nas décadas de 60 e 70, como a relação entre arte e política, e, no que se refere à forma, discute as distâncias entre realidade e mentira e entre o documentário e a ficção. Assim, a divertida questão que envolve o espectador logo nas primeiras seqüências do documentário – “Manrique Figueroa realmente existiu?” – dá espaço a uma reflexão sobre a construção de relatos verídicos no cinema, além de tocar as utopias de inúmeros artistas-militantes anônimos que marcaram a história sem nem fazer parte dela.

O lançamento de Un tigre de papel, rodada na Colômbia, România, China, Inglaterra, Venezuela, Estados Unidos, Francia e Índia, aconteceu no último domingo, 30.09, em Bogotá, durante a 11ª edição do festival da revista cultural El Malpensante. Junto à estréia, Luis Ospina apresentou também seu novo livro, Palabras al viento, mis sobras completas (Ediciones Aguilar del Grupo Santillana), uma recopilação de textos sobre cinema do realizador, que ao longo de sua carreira, também se dedicou a escrever artigos e crônicas, além de reflexões sobre sua obra e de cartas trocadas com os diretores Andrés Caicedo e Carlos Mayolo.

Sobre seu novo documentário, Luis Ospina comentou ao Portal del Cine Latino-Americano y del Caribe: “Ao ficar sabendo deste artista desconhecido, pensei que seria um bom pretexto para fazer um documentário sobre os anos 60 e 70 (...). Tanto se disse sobre essas décadas que já não sabemos em que acreditar. É um período que foi idealizado, mistificado e ficcionalizado. Mas, pelo menos, naquela época que hoje parece tão distante, havia ideais e existia a esperança de uma utopia coletiva. Foi provavelmente o último momento em que a humanidade pensou que poderia mudar o mundo. Agora simplesmente nos conformamos com ‘salvar o planeta’”.

Por Camila Moraes

 Quinta, 04 de Outubro de 2007
Aporte à "biblioteca” do cinema latino-americano em Huelva

É fato: as cinematografias ibero-americanas, sobretudo as latino-americanas, ainda carecem de livros que registrem e que pensem o seu fazer. Uma das iniciativas para reverter essa situação vem agora do Festival de Cine de Huelva, na Espanha, que anunciou para sua 33ª edição, que acontece de 17 a 24.11, o lançamento contínuo de livros sobre o assunto.

Em parceria com a editora Ocho y Medio, de Madrid, o evento vai produzir a coleção “Libros de Ultramar”, cujo primeiro título será “Cine cubano de los sesenta. Mito y realidad”. O livro, escrito pelo investigador cubano Juan Antonio García Borrero, trata da década prodigiosa do cinema cubano, que corresponde aos primeiros anos da Revolução.

O plano é que, a cada edição do festival, novos títulos sejam publicados. Os organizadores planejam uma linha editorial independente e um projeto que dê conta dos vários aspectos do cinema ibero-americano. E haja trabalho.

 Quarta, 03 de Outubro de 2007
Para se ver: Lucio, velho anarquista espanhol

O documentário espanhol Lucio estreou em setembro na seção Especial Zabaltegi do Festival de Cine de San Sebastián, com a presença dos dois diretores bascos, Jose Mari Goenaga e Aitor Arregi, dos produtores e do próprio Lucio Urtubia. 

Para que se saiba mais sobre este personagem, que representa a luta anarco-sindicalista espanhola e antifranquista, a idéia do filme é mesclar imagens de época e também recriar episódios em que Lucio nos anos 70, principalmente, foi tido pela imprensa como "bandido bom" ou o "Zorro Basco", quando falsificava documentos e imprimia e disseminava propaganda anarco-sindicalista debaixo dos olhos censores do regime do ditador Franco na Espanha.

Há depoimentos e comentários sobre Lucio ter sido alvo de mandados de busca e captura por Tribunais Internacionais, incluindo a CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos), quando conseguiu burlar o principal banco dos Estados Unidos – o First National Bank (hoje Citibank) –, falsificando cheques de viagem e causando um desfalque de cerca de 20 milhões de euros na época. O acontecimento culminou em uma das piores crises do banco.

Lucio Urtubia deu apoio a personagens históricos como Eldridge Cleaver, o líder dos Panteras Negras nos Estados Unidos, e Quico Sabaté, um dos máximos expoentes da guerrilha urbana na Catalunha, severamente castigada pelas tropas franquistas. O filme também traz à memória os encontros que Lucio manteve com André Breton, Albert Camus e Ernesto Che Guevara.

Ainda ativo, Lúcio - que nasceu em Cascante em 1931 - vive desde 1954 em Paris, quando partiu em exílio e onde administra o Centro Cultural Louise Michelle, em que se levam a cabo atividades culturais e solidárias com diversos movimentos sociais de todo o mundo. 

O trailer do filme pode ser visto no site: www.lucio.com.es.

Por Paula Skromov

 Terça, 02 de Outubro de 2007
Cine latino em "curtas" V

Notícias rápidas sobre cinema latino: mais candidatos ao Oscar estrangeiro em 2008, mostra de cinema venezuelano na Itália e os vencedores de Biarritz e San Sebastián. Confira.

:: Mais Oscar

Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia eram os últimos países latinos que ainda estavam por anunciar seus candidatos à corrida do Oscar estrangeiro. Argentina ficou com XXY, de Lucía Puenzo, que superou as preferências por La señal, de Ricardo Darín (que atua em XXY), e La antena, de Esteban Sapir. O Uruguai, com grandes chances de ser selecionado, foi por seu adorável O banheiro do papa (El baño del papa), de Enrique Fernández e César Charlone (leia abaixo sobre a premiação de O banheiro... em San Sebastián). O Chile ficou com Padre Nuestro, segundo filme de Rodrigo Sepúlveda. A mesma escolha vale para o Goya, da Espanha. Já a Bolívia fez péssima escolha por Los Andes no creen en Dios, romance histórico de trama fraca e em formato televisivo.

:: Mais Chávez
A Casa del Cine de Villa Borghese, em Roma, na Itália, irá abrigar entre 05 e 07.10 uma mostra de cinema venezuelano. A iniciativa se chama “Focus Venezuela” – mais uma dentro dos impulsos do governo de Chávez para divulgar a cinematografia da Venezuela – e foi organizada pela Embaixada venezuelana em cooperação com a Casa del Cine. Confira a programação no site da Embaixada e visite o site da Casa del Cine de Roma.

:: Festivais de Biarritz e de San Sebastián anunciaram seus vencedores

Foi a venezuelana Mariana Rondón, com seu Postales de Leningrado, quem arrematou o prêmio “Abrazo” do festival de Biarritz, na França. No mesmo evento, a escolha do público foi a co-produção Uruguai-Argentina-Chile Matar a todos. Já em San Sebastían, na Espanha, o grande vencedor do prêmio “Horizontes” foi o filme uruguaio O banheiro do papa (El baño del papa), de Enrique Fernández e César Charlone. O incentivo de 35 mil euros será dividido em 10 mil para o diretor e 25 mil para o distribuidor espanhol (Golem Distribuición). O disputado prêmio Cine en Construcción deste ano, de um grupo de empresas que oferece ajuda para pós-produção de produções latinas já rodadas, foi para a guatemalteca Gasolina, de Julio Hernández Cordón. O filme também levou o prêmio Casa de América, que consiste em uma ajuda de também de pós no valor de 10 mil euros, além do prêmio Confederación Internacional de Cines de Arte y Ensayo (CICAE), que dá apoio à exibição em salas da França. Saiba mais nos sites de Biarritz e de San Sebastián.

Foto: cena de Gasolina, do guatemalteco Julio Hernández Cordón.

 Terça, 02 de Outubro de 2007
Mostra de Cinema da Pan-Amazônia programa filmes cubanos em Belém

Acontece em Belém do Pará, há 11 anos, a Mostra de Cinema da Pan-Amazônia, cuja edição de 2007 dá especial atenção a grandes clássicos do cinema cubano. O evento, que é parte da Feira do Livro, é coordenado pela FUMBEL (Fundação Cultural do Município de Belém) e acontece no Espaço Municipal Cine Olympia.

Ainda dá tempo de acompanhar a programação de longas e curtas metragens, que começou em 29.09, com a exibição de Brascuba, de Santiago Alvarez e Orlando Senna, e termina no próximo domingo, 07.10.

Confira os filmes agendados para esta semana:

03/10 (quarta-feira) - 15h
- Hanoi Martes 13 e El sueño del pongo
Curta (34"). Recomendado para maiores de 12 anos.

04/10 (quinta-feira) - 15h
- El tigre saltó y mató, pero morirá, morirá
- Noticeros 421
Curtas (30"). Recomendado para maiores de 12 anos.

05/10 (sexta-feira) - 15h
- Cómo, por qué y para qué se asesina a un general
- Noticero 142
Curta (34"). Recomendado para maiores de 12 anos.

06/10 (sábado) - 15h
- 79 primaveras
- Noticero 1296
Curtas (30"). Recomendado para maiores de 12 anos.

07/10 (domingo) - 15h
- Ciclón
- Noticero 625
Curtas (30"). Recomendado para maiores de 12 anos.
Local: Cine Líbero Luxardo
Coordenação: Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves

03 a 07/10 (quarta a domingo) - 19h30
- Hércules 56
Longa (94"). Recomendado para maiores de 14 anos

Via
Felipe Pamplona

 Segunda, 01 de Outubro de 2007
Entrevista: Ciro Guerra fala de La sombra del caminante

Nascido em 1981, no norte da Colômbia, Ciro Guerra é um dos principais talentos do cinema colombiano dentro do atual panorama do país – que completa apenas quatro anos da lei de incentivo à produção nacional.

Sua obra prima – La sombra del caminante (2005) – é considerada um debut e tanto: percorreu 52 festivais em 45 países e arrematou nada menos que 15 prêmios. Agora, como era de se esperar, estão todos – profissionais e público – de olho em seu próximo trabalho, Los viajes del viento, atualmente em fase de pré-produção.

Ciro contou com detalhes à Latina como foi o duro processo de nascimento de seu primeiro filme. E confessa que, para o futuro, a meta é “fazer cinema sem morrer de fome”. Confira a entrevista.

Quando surgiu em você o desejo de fazer cinema e como se deu sua formação na área?

Sempre gostei de contar histórias. Tentei fazer isso de muitas maneiras, escrevendo, declamado, desenhando. Aos 12 anos descobri o poder do cinema e, desde este momento, soube que era a isso que queria me dedicar.

O processo na Universidade Nacional foi muito bonito, porque tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas com as que continuo trabalhando. Também teve seu encanto isso de passar vários anos refletindo e debatendo sobre cinema de uma maneira muito primária, muito básica, mas muito sincera e iluminadora. Foi graças a isso que pude juntar os elementos necessários para fazer meu primeiro longa-metragem.

Quais são seus principais trabalhos antes do seu primeiro longa, A sombra do caminante?

Fiz vários curtas-metragens, documentários, animações. Nada muito relevante.

Como se deu todo o processo de realização de La sombra del caminante? Você esperava tanto sucesso?

Eu já havia passado pelo curta em vídeo, mas me dei conta que, como gênero, não me satisfazia por completo, porque certas coisas que busco são mais características do longa-metragem. Vi a oportunidade e disse: “Vou fazer um longa e ver quanto tempo isso me toma, porque sinto que, se não faço isso agora, depois vai ser muito difícil”. Isso foi em 2000, e então trabalhei a idéia que tinha para o roteiro. Pensei que era mais fácil, para dizer a verdade. Estive a ponto de rodar um ano depois de começar a escrever, mas fracassei, porque o material era muito ruim. Um dia antes da gravação, nos reunimos em equipe, nos olhamos e dissemos: “Isso está muito ruim”. Engoli meu orgulho e me sentei para escrever mais um ano. Exatamente um ano depois, fizemos o filme. Durante todo esse tempo, foram 14 tratamentos.

Rodamos o filme com uma verba de entre seis e oito milhões de pesos [colombianos, o que equivale ao custo de três a quatro mil dólares]. Isso implicou condições de filmagem incrivelmente duras para as pessoas e particularmente para um processo tão longo como foi o nosso. Você escuta falar de gente que filma uma ou duas semanas; La sombra del caminante teve 48 dias de filmagem efetiva. Filmamos todo o tempo que podíamos. Foi muito tenso, perdemos muita gente durante a filmagem por trabalhar dessa maneira, mas a coisa foi pra frente não sei como.

Logo me sentei para editar o material durante quatro meses, até ter um primeiro corte. Durava dois horas e cinqüenta minutos. Eu não sabia que fazer, então levei o resultado para [o produtor e realizador colombiano] Jaime Osorio, e ele me disse: “Aqui há um filme, mas vamos ter que cria-lo a partir de tudo o que você fez”. Demoramos mais um ano e meio editando.

Durante esse processo, quando tínhamos chegado a um corte de uma hora e 40 minutos, o Jaime enviou o filme aos festivais de San Sebastián e de Tolouse. Já tínhamos vindo do rechaço do Ministério de Cultura nas etapas do roteiro, de pós-produção e de distribuição, então pensei: “Vai ver que isso não serve mesmo de nada. Têm razão”. Mas ao final nos classificamos para o Cine en Construcción, que é uma iniciativa a que se enviam filmes latino-americanos de largo metragem sem recursos para chegar sozinhos à cópia em 35 mm. E são enviados ao redor de 50 ou 60 filmes já produzidos, dos quais são selecionados apenas seis. Logo em seguida, esses filmes são apresentados nos festivais de San Sebastián e de Toulouse a distribuidores, produtores, canais e representantes de outros festivais. Enfim, a todo mundo que possa contribuir para que o filme seja pós-produzido e distribuído.

Tivemos uma recepção tremenda. Ganhamos, além disso, um prêmio em que as indústrias técnicas da Espanha se unem para impulsionar um filme. É dizer que a filmagem que tivemos foi paupérrima, mas a pós-produção foi excelente. Polimos o filme em todos os sentidos. Arrumamos vários defeitos – coisas que não estavam apresentáveis por filmar como filmamos.

Como foi a reação ao filme na Colômbia e no exterior?

Muito positiva. O filme percorreu um longo caminho – que ainda continua – rodando pelo mundo, encontrando novos públicos. Foram até agora 52 festivais em 45 países, dezenas de milhares de pessoas viram o filme, e recebemos 15 prêmios – coisa que não podíamos imaginar quando estávamos com a mão na massa. De maneira lenta, mas muito segura, o filme foi encontrando espectadores, ainda que sejam poucos numericamente, e isso lhe deu um grande valor. E também nos permitiu seguir fazendo cinema, que é o mais importante.

De que se trata seu novo prometo, Los viajes del viento?

É a história de uma despedida, no contexto da música da costa norte da Colômbia.

Quais são seus planos para o futuro como realizador?


Tratar de fazer filmes sem morrer de fome.

Por Camila Moraes

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