Sexta, 08 de Fevereiro de 2008
Entrevista: Simón Brand, diretor de Paraíso Travel

Passados quatro anos do lançamento da lei nacional de cinema na Colômbia, uma coisa está clara: os colombianos (em sua maioria) querem projetos comerciais, de boas histórias (de preferência, em tom universal) e bilheteria rentável – para dentro e para fora do país. Pois pouco a pouco, o que se vê na oferta de filmes nacionais – uma cifra de 14 estréias em 2007 – são projetos independentes, mas de pegada comercial, que se distanciam dos tradicionais temas colombianos (segundo olhares estrangeiros): guerrilha e drogas. Paraíso Travel, de Simon Brand, diretor colombiano que vive nos Estados Unidos, é até agora o melhor exemplo local de filme redondo, bem contado e que romper as fronteiras. Saiba mais sobre este projeto - que estréia em nível internacional no Festival Tribeca de Nova York, em abril - e sobre seu realizador, nas palavras do próprio, em entrevista exclusiva à Latina.

Você começou em publicidade, certo? Como terminou entrando para o cinema?

Era um passo lógico. Sempre quis fazer cinema. Minha paixão pela música me levou ao videoclipe. Logo, com os comerciais, acabei adquirindo o conhecimento técnico e a experiência em set. A única coisa que fazia falta era trabalhar com atores, não com modelos ou cantores, compreender que o mais importante ao se fazer um filme é a história e as decisões na hora de escolher o casting. A parte narrativa e visual eu já tinha quase que por instinto. De fato, acredito que o mesmo instinto é a melhor ferramenta para um diretor, sempre.

Você trabalhou com música?
Trabalhei muitos anos dirigindo videoclipes, mas nunca fui músico. Tem mais: sou um músico frustrado. Eu adoraria ter aprendido a tocar um instrumento. Trabalhei em rádio uns dois anos. Aí foi onde treinei o ouvido!

Você é colombiano, mas vive nos Estados Unidos. Como vê a distância entre a América Latina e os Estados Unidos hoje em termos culturais?

As distâncias estão cada vez mais curtas, graças à Internet e às janelas de comunicação que existem hoje em dia. Mas, definitivamente, ainda existe um tremendo choque cultural quando um latino-americano viaja aos Estados Unidos. Acho que, como diretor, é uma vantagem ter esse “biculturalismo”. A perspectiva política, social e cultural é algo que carrego mais de perto. É mais factível que um diretor latino-americano tenha sido afetado direta ou indiretamente pela problemática social de seu país, que um norte-americano. E isso se reflete em seus filmes ou pelo menos na maneira em que os aborda. Por isso, os filmes de diretores como Iñárritu e Meirelles se sentem tão autênticas. É a realidade dos nossos países e, cedo ou tarde, toca a todos nós interpretá-la.

Em sua opinião, que trabalhos foram mais importantes para a sua carreira?

Como disse antes, os comerciais e os videoclipes me deram muita experiência e confiança para estar em um set e conhecer os detalhes técnicos. Foi uma etapa vital na minha carreira. Não posso dizer que foi uma substituição da escola de cinema, mas, sim, me permitiu experimentar e à custa de outra pessoa. O cinema é outro objetivo, são mundos completamente diferentes, e este último tem uma grande vantagem, que é: quando você faz um filme, ele fica pra sempre.

Como foi a repercussão de seu primeiro filme, Mentes em branco?

Foi uma grande oportunidade, e eu não deixei de aproveitar. Apesar de não ter tido um lançamento apropriado nos Estados Unidos, em muitos outros lugares, incluindo Europa, Oceania e Ásia, o filme foi um sucesso comercial e de crítica. Custou 3,7 milhões [de dólares] e já juntou mais de 18 milhões em todo o mundo, sem contar home video. No entanto, acredito que o mais importante foi o que eu aprendi e apliquei em Paraíso Travel. Da mesma maneira, aplicarei tudo o que aprendi em Paraíso no próximo projeto. Disso se trata: um bom diretor deve sempre absorver e aplicar. Trabalhei com grandes profissionais de atuação como Caviezel, Kinnear, Stormare etc. E por ser meu primeiro longa, foi um grande privilégio que tenham confiado em mim a todo o momento.

No material para a imprensa se menciona que, para seu segundo longa, você preferiu “atender à demanda internacional por fazer filmes de fala hispânica nos Estados Unidos”. Muita gente acredita que o cinema não falado em inglês não têm muitas oportunidades nos EUA hoje. Você discorda?

Definitivamente é muito mais difícil que abram as portas para um filme “estrangeiro” nos Estados Unidos. Em Hollywood, a única coisa que interessa é que os “nomes” (atores reconhecidos) estejam ligados ao projeto e que o roteiro seja suficientemente comercial. Com Paraíso, o caso é diferente, porque se trata de uma história com que podem identificar-se milhões de imigrantes que vêm aos Estados Unidos ilegais para buscar seu sonho americano. Mas não o faz de maneira clássica ou demonstrando o problema migratório pelo lado patético. É todo o contrário: mostra o latino empreendedor, trabalhador e honrado que veio por uma só razão. Amor.

O que chamou sua atenção na história contada por Jorge Franco em seu livro Paraíso Travel?

Eu gosto muito da maneira como escreve Jorge Franco. Além de ser um escritor extraordinário, é uma grande pessoa. Senti uma identificação grande com Marlon, seu personagem principal. A todo homem chega um momento na vida em que tem que tomar certas decisões que definem não somente sua personalidade, mas também o resto da sua vida. E também se trata de uma história baseada na Colômbia, mas não tem nada a ver com violência, drogas, guerrilha etc. É uma história de amor sob o contexto da imigração ilegal. Dois temas profundamente universais.

Como foi o processo de produção do filme?

Foi difícil, tive que apostar às cegas para primeiro poder obter credibilidade e financiamento para Paraíso. O desafio principal foi o casting: encontrar aos dois personagens principais foi uma enorme aventura. Fiz casting com mais de 400 atores para chegar ao final, e com sorte me deparei com Aldemar e Angélica. Na filmagem, as coisas também foram complicadas, quase todas as internas de Nova York foram gravadas na Colômbia, e eu me empenhei em manter tudo legítimo e autêntico, por isso a direção de arte foi feita com muito cuidado. A pós-produção sempre é um processo que eu adoro. Sobretudo, a parte da música. Foi muito divertido escolher as canções da trilha; trabalhar com Sigur Rós e com Ângelo Milli de novo foi uma honra. O mais difícil do processo é cortar as cenas em que se trabalha tão duro, para depois tirar da edição final.

Como você vê a situação do cinema colombiano hoje?

O cinema colombiano passa por um grande momento. Existem filmes que vão agradar e outros que não, mas o importante é que se produza e que a coisa se converta em negócio. E isso é o que vem demonstrando a bilheteria no país. Acredito que nesse momento existam mais de 60 projetos em diferentes etapas de produção, uma cifra impensável 10 anos atrás. É uma injeção à indústria do entretenimento, e companhias como RCN [um dos dois maiores canais televisivos da Colômbia] acreditaram nela, apoiando absolutamente a todos os projetos produzidos na Colômbia.

Quais são seus próximos projetos?

Neste momento, acabo de ter um filho, meu maior projeto. Me dedicarei a ele e à minha família e obviamente a ler muitas histórias para encontrar qual quero fazer. Se vou investir mais de um ano de trabalho a algum projeto, é necessário que tenham muito amor e paixão. De outra maneira, não vale a pena.

Você tem alguma mensagem aos diretores latino-americanos que estão começando?

Sim. Que não acreditem em ninguém, senão neles mesmos, em seu instinto. Que procurem controlar criativamente seu projeto em todos os aspectos e que aproveitem os milhares de recursos que existem hoje em dia para se poder fazer cinema independente.

Por Camila Moraes.

Saiba mais sobre Simon Brand clicando no link e veja o trailer de Paraíso Travel abaixo:

 
   
 Quarta, 06 de Fevereiro de 2008
Cine latino em "curtas" II: conexão alemã

Coincidência ou não, a Alemanha é o tema central de dois festivais latinos importantes este ano e, além disso, acaba de declarar 2008 o ano do cinema colombiano em Bremen. Confira mais nas curtas abaixo.

:: Festival de Lima lança convocatória

Acontece em agosto (de 07 a 15.08) o mais importante festival peruano de cinema, o Festival de Lima, que este ano tem a Alemanha como país convidado. O evento está convocando realizadores para as mostras competitivas desta que é a 12ª edição. As categorias são ficção, obra prima e documentário. Os interessados, que têm até 02.05 para se inscrever, devem anotar os seguintes dados de contato:

Pontificia Universidad Católica del Perú - Centro Cultural
Festival de Lima – 12° Encuentro Latinoamericano de Cine
Av. Camino Real 1075 San Isidro, Lima 27, Peru
 

:: Bremen, capital do cinema colombiano em 2008

A linda cidade do sul da Alemanha irá exibir ao longo deste ano uma série de títulos colombianos, com exibição gratuita. La sombra del caminante, do diretor Ciro Guerra, é o primeiro filme da lista, com projeção gratuita (assim como as demais seções). A iniciativa é da Embaixada Colombiana no país. Saiba mais aqui.

:: Festival de Bogotá recebe inscrições

Assim como Lima, outro evento latino-americano tem a Alemanha como país homenageado E também está recebendo inscrições de realizadores interessados em participar de sua mostra competitiva. O Festival de Bogotá, 25ª edição, acontece em outubro, de 01 a 09.10, com diversas categorias competitivas: internacional, Festival de video, documental, Muestra de cine digital, infantil e Premio Alexis. Saiba mais no site do evento

 Sexta, 01 de Fevereiro de 2008
Mais Chico Buarque no cinema

Começaram as filmagens de Budapeste, a terceira novela de Chico Buarque, levada ao cinema por Walter Carvalho – diretor de fotografia de Central do Brasil e realizador de Cazuza, o tempo não para –, com roteiro de Rita Buzzar. Os livros anteriores de Chico também viram filmes através das lentes de Ruy Guerra (Estorvo, de 2000) e Sandra Gardenberg (Benjamim, de 2001).

Budapeste, o livro, fala da construção da personalidade a partir das particularidades de um idioma através da história de um escrito que viaja à capital da Hungria, onde termina ficando depois de decidir abandonar sua família no Rio de Janeiro.

Com orçamento estimado em quatro milhões de dólares, o filme é uma co-produção entre a Nexus Cinema, do Brasil, a Eurofilme, da Hungria, e Stopline Films, de Portugal. Os atores Leonardo Medeiros (José Costa) e Giovanna Antonelli serão os protagonistas, ao lado dos portugueses Ivo Canelas e Nicola Breyner. As gravações acontecem entre o Rio de Janeiro e, claro, Budapeste.

Foto: capa da edição francesa de Budapeste.

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