LA LATINA INC.

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Dia 23
outubro 2015

O melhor do cinema latino esquenta a 39ª Mostra de SP

Alfredo Castro, chileno, protagoniza o filme venezuelano 'Desde allá'. / DIVULGAÇÃO

Alfredo Castro, chileno, protagoniza o filme venezuelano 'Desde allá'. / DIVULGAÇÃO

Às portas do seu aniversário de 40 anos, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é como um adulto equilibrado: jovem ainda, porém maduro. Procura qualidade, mas não perdeu o interesse pelonovo – desde que ele alimente a veia da cinefilia – e assim se mantém curioso, indo além do conhecido. E o quente da cinematografia mundial é hoje o cinema latino-americano, que cresce a galopes em termos quantitativos e qualitativos e corresponde à evidente dose de curiosidade da atual 39a edição da Mostra. Dos 312 títulos de 62 países que integram a atual programação – que ocupa 22 endereços paulistanos entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro – 25 são produções de nove países hispânicos da América Latina e outras 70, brasileiras.

É verdade que, em um ano de arrocho, o evento ficou menor (diminuiu seu orçamento em 40%), mas também mais depurado e próximo de sua essência, que são os bons filmes autorais. Juntando esse rigor de curadoria com o fato de as mais importantes vitrines internacionais do cinema – CannesBerlimVeneza – terem premiado, nas suas últimas edições, vários filmes latinos que contam histórias locais sabendo ser universais e que agora circulam por outros festivais, quem quer saber o que acontece de bom nas telas de Argentina, Chile, Colômbia e Venezuela, entre outros países vizinhos, vai se deliciar.

O banquete começa com Desde allá, o primeiro longa-metragem do cineasta venezuelano Lorenzo Viga –o primeiro latino-americano a levar um Leão de Ouro na história do Festival de Veneza, em setembro. Com a trama de um assédio que se torna amizade e depois uma relação amorosa estranha entre um homem e um adolescente, o diretor vem conquistando prêmios por esse trabalho que retrata subúrbio de Caracas, mas vai muito além. O filme nasce de um roteiro escrito em parceria com o roteirista e produtor mexicano Guillermo Arriaga (deAmores brutos) e conta com a atuação de um grande ator chileno, Alfredo Castro, estrela dos filmes do chileno Pablo Larraín (Tony ManeroPost MortemO Clube e outros).

Da Colômbia, chega A terra e a sombra, de Cesar Augusto Acevedo, vencedor do troféu Camera D’Or no Festival de Cannes, fala sobre a volta de um camponês que volta para casa depois de 17 anos de ausência – e lá encontra o filho, no leito de morte, por causa das queimadas nas plantações locais de cana de açúcar. Chega também O abraço da serpente, de Ciro Guerra, definido pela revista The Hollywood Reporter como uma “exploração visualmente fascinante do homem, da natureza e dos poderes destrutivos do colonialismo”. Em preto e branco, o filme – baseado em relatos dos exploradores Theodor Koch-Grunberg e Richard Evans Schultes – mostra a relação entre um xamã indígena que deixa o isolamento voluntário na selva para acompanhar um pesquisador americano à procura de uma planta sagrada.

O Chile, que assim como a Colômbia vive um importante salto qualitativo em seu cinema, também está presente na seleção com três títulos, entre eles a última entrega do documentarista Patricio Guzmán, O botão de pérola. O diretor – um veterano do cinema chileno (e mundial), mestre em construir relações poéticas e políticas sobre seu país e em retratar a ditadura de Pinochet – faz neste filme uma ode à água e ao oceano Pacífico que banha a curiosa geografia do Chile, abordando o extermínio dos povos originários do Sul e as vítimas do ditador em mais um país latino-americano de desaparecidos. Guzmán, por sinal, é um dos homenageados deste ano e receberá da mostra o prêmioHumanidade.

Títulos da Argentina, como Paulina (Santiago Mitre), do México, como Chronic (Michel Franco), e do Peru, como Magallanes(Salvador del Solar), completam a lista suculenta, que para a diretora da Mostra, Renata de Almeida, “é reflexo de um crescimento do cinema latino-americano, em quantidade e qualidade”. “Não vamos apenas atrás dos premiados. É preciso lembrar que além daquele que é eleito o melhor filme, há vários outros melhores filmes que nos empenhamos em identificar”, diz. Desde allá, ela revela, foi convidado a vir a São Paulo antes de entrar em Veneza e lá ganhar o prêmio principal. Não há crise, para ela, que impeça o evento de reconhecer a primavera da cinematografia latino-americana. Nem de nenhuma outra.

(Publicado no El País Brasil)

Dia 23
outubro 2015

O artista argentino que irritou o Papa Francisco está no MASP

'Autopista del Sur' (1981), obra exposta no Masp. / REPRODUÇÃO

'Autopista del Sur' (1981), obra exposta no Masp. / REPRODUÇÃO

“Esse cara devia estar preso quando fez tudo isso”, diz uma visitante da exposição León Ferrari – Entre Ditaduras, que estreou no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP) nesta sexta-feira, 23 de outubro, onde fica até 21 de fevereiro de 2015. A mulher, que toma contato com obras do maior artista plástico argentino pela primeira vez, fala de gravuras e desenhos de grande extensão, preenchidos por detalhes diminutos, feitos à mão e dignos de paciência. Mas poderia estar se referindo também ao fato de que Ferrari (1920-2013), crítico do cristianismo, era um grande desafeto do Papa Francisco quando ele era apenas Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, e ainda não viajava o mundo difundindo ideias progressistas. Ou ao fato de que León foi perseguido pela ditadura de seu país e, justamente para não ser preso, se exilou em São Paulo de 1976 a 1991.

São originais desse período de ditadura militar (também no Brasil) as cerca de 80 obras expostas no museu paulistano, todas doadas pelo artista, que antes de voltar à Argentina repartiu seu acervo da época entre três museus brasileiros, o MASP, o MAM e o MAC. A ideia de resgatá-las nesta nova fase do MASP – em que se notam os esforços da diretoria para recuperar o espaço, sanar seus problemas estruturais e oxigenar sua programação – veio da curadora-adjunta Julieta González e do curador Tomás Toledo, que dedicaram o ano de 2014 a pesquisar seu acervo. “No ano que vem, o MASP vai expor um olhar sobre sua própria história. Preparando-nos para isso encontramos as obras de León, raras ao museu (que é mais especializado em arte clássica europeia), mas de uma importância enorme”, explica Julieta, que é venezuelana e vive no México, onde é diretora interina do Museu Jumex, no Distrito Federal.

Sendo assim, lá no subsolo do MASP estão expostas duas séries emblemáticas de León Ferrari, que exemplificam com perfeição suas lutas principais: a primeira, contra os regimes ditatoriais da América do Sul, que controlavam os cidadãos nos aspectos mais prosaicos do cotidiano; e a segunda, contra a Igreja Católica, cujas ideias conservadoras ele sempre questionou. Há gravuras e desenhos e principalmente um conjunto de impressões em fotocópias e neles abundam homens confinados, cidades subjugadas e dragões, além de homens e mulheres em posições sexuais ao lado de santos católicos. Todos os trabalhos foram feitos nesse formato, além de heliografia, microfilme, letraset e videotexto, que são técnicas com grande potencial de mobilidade e distribuição. “Hoje muitos artistas utilizam técnicas parecidas, mas naquele foi um gesto radical de León, além de arriscado, para circular sua arte e driblar a censura”, diz Julieta.

León Ferrari, segundo o New York Times, era um dos cinco artistas plásticos mais provocadores e importantes do mundo. Debutou como artista para o mundo em Milão, na Itália, com sua primeira exposição individual, em 1955. Em seguida, começou a experimentar com esculturas e participou de diversos movimentos artísticos engajados, como Tucuman Arde e Malvenido Rockefeller, ainda em Buenos Aires. A perda de um filho nas mãos dos militares argentinos o faz se mudar para São Paulo, onde conviveu com artistas como Carmella Gross, Hudinilson Júnior, Regina Silveira e Julio Plaza.

Sua obra mais conhecida, La Civilización Occidental y Cristiana (de 1965), exibe a imagem de Jesus Cristo crucificado sob um avião carregado de bombas, em referência à guerra do Vietnã, e foi aquela que despertou a ira de Bergoglio. Em 2004, o atual Papa pediu aos católicos uma “jornada de jejum e orações” contra esse trabalho em particular e também para que uma retrospectiva de Ferrari no Centro Cultural Recoleta fosse fechada. Quem terminou fazendo isso foi o próprio Ferrari, que temia pela segurança dos funcionarios do lugar (sob constantes ameaças de bomba). Porém, em 2007 La Civilización ganhou o Leão de Ouro da 52ª Bienal Internacional de Arte de Veneza e, em 2010, a Arco, uma das principais feiras de arte do mundo, considerou-o o melhor artista internacional vivo naquele então.

Resgate latino-americano

Especialista na produção artística contemporânea da América Latina, Julieta González chama a atenção para o fato de a arte latino-americana estar vivendo um importante momento de resgate no mundo – e afirma que isso tem consequências no Brasil. “Vivemos um momento importante, cujo ponto de virada foi a exposição Global Conceptualism, que aconteceu em 1999 em Nova York, despertando interesse sobre a nossa produção artística, que nessas décadas politicamente críticas desafiava muitas convenções e por isso foi mantida em arquivos pessoais dos próprios artistas. Só recentemente passou a ser resgatada”, esclarece a curadora adjunta do Masp.

Para ela, muitas exposições provocadoras e essenciais como a de León Ferrari virão por aí, amparadas também pelo importante acervo de documentos sobre arte latino-americana de Houston, disponibilizados em uma biblioteca virtual que muitos especialistas passaram a pesquisar. Sem dúvida, há muito material aí sobre religião e sobre ditadura, e – talvez na atual fase – o Papa Francisco tenha de tolerar sua difusão.

(Publicado no El País Brasil)

Dia 04
outubro 2015

Entrevista com o músico uruguaio Daniel Drexler, que inventou o ‘templadismo’

Daniel Drexler, irmão mais novo de Jorge, por Santiago Epstein

Daniel Drexler, irmão mais novo de Jorge, por Santiago Epstein

Daniel Drexler, sorriso ladeado no rosto, vestindo o jeans e a camiseta do mais comum dos homens citadinos, caminha determinado e sem urgência pelo saguão de um hotel paulistano. Discreto porém afetuoso, esse uruguaio de 46 anos senta-se à mesa do bar com a jornalista e a cumprimenta em fluído português. Fala alguns minutos e nem assim deixa entrever algum dos dois polos que definem seu lugar no mundo: é músico (está em São Paulo para uma apresentação única de seu show Tres tiempos) e médico especializado em audição, mas poderia ser qualquer outra coisa.

Surdo de um ouvido, Drexler – que é irmão de outro Drexler famoso, o Jorge (também músico, também médico) – diz que alcançou ao fim o equilíbrio entre dois universos aparentemente opostos: a criatividade a razão. O show Tres tiempos, acompanhado de um DVD-livro, celebra a unidade que ele diz ter alcançado após seus três discos anteriores e a chamada estética dotempladismo, sobre a que teorizou.

Pergunta. Tres tiempos resgata os três discos que você já lançou. O que o motivou a criar essa trilogia?

Resposta. Só recentemente caí em conta que esses discos, que são conceituais, formam uma trilogia. O primeiro [Vacío; 2006] fala do vazio, o segundo da incerteza [Micromundo; 2009], e o terceiro [Mar Abierto; 2012], da modernidade líquida. Esse último também fala do meu pai, que fugiu da Alemanha em época de guerra para começar uma vida nova. Quando terminei de gravá-lo, apareceu a ideia de produzir um DVD ao vivo com instrumentos de música erudita e popular. Falei com um amigo meu de Buenos Aires, que é diretor do programa Encuentros en el Estudio, muito conhecido na América hispânica. A ideia era gravar lá, no estúdio ION, o principal da história da música da bacia do rio da Prata. Ele me respondeu: “Cara, só se você escrever um livro sobre o vazio”. Já escrevi muita coisa, mas na área da poesia, músicas e artigos científicos, não livros. A lógica da escrita, nesse caso, é totalmente diferente. Falei para o meu amigo: “Bom, vai ser um livro curto, umas 20 ou 30 páginas”. No fim, foram 120 páginas, que escrevi como se eu estivesse saindo da cadeia. Quando você compõe música, tem regras muito precisas. Nos artigos científicos, é ainda pior. Quando comecei a escrever com aquela liberdade, ouvindo o silêncio da escritura, foi muito emocionante.

P. Você é médico e músico. Como isso convive em você, ser um científico e ter sensibilidade artística – coisas que a gente aprende a ver bem separadas?

R. É fácil encontrar um vínculo entre o pensamento científico e a criatividade artística, que para mim são quase a mesma coisa. Na Ciência, você precisa de muita intuição. As ideias nesse campo surgem intuitivamente, mais do que a gente pensa. Existe uma palavra maravilhosa, serendipidade, que diz que as grandes ideias sempre aparecem num sonho ou caminhando, como uma epifania. Na música é igual. Lá, você também se enfrenta com o vazio: ninguém transitou aquela estrada antes. E a medicina é a maior biblioteca para atingir a alma de um ser humano. Na prática, você vive situações-chave, desde a morte até o parto. Além de atender, eu pesquiso o tinnitus, que é o zumbido do ouvido, e desenvolvi um aparelho de biotecnologia para o tratamento desse problema, que virou uma patente nos Estados Unidos e passou a ser comercializado. Foi uma ideia que veio para mim em um estúdio de música.

P. O fato de você vir de uma família de médicos, em que quase todos se envolveram com a música é um fenômeno curioso. Como se explica?

R. Não sei. Meu pai e meu tio são médicos. Minha mãe e meu irmão mais velho, Jorge, também… Minha irmã é dentista. Todos fazem música e literatura, sem que tenha havido estímulo especial para isso. Tentei algumas explicações a respeito em um livro. Meu pai é um sobrevivente do holocausto e, assim como muita gente que passou pela mesma situação, virou artista. É a coisa da resiliência. A arte é uma das formas de resiliência mais fortes que existem. Às vezes, temos algo na cabeça, e o único jeito de se relacionar com isso é criar um mundo imaginário. Ele agora está aposentado e vai pelo terceiro romance… A segunda possível explicação reside no fato dele ter chegado num país chamado Uruguai, chamando-se Günter Drexler. A arte, de novo, é uma forma muito direta de se atingir a identidade de um país. Quiçá o fato dos meus irmãos e eu escrevermos canções, um gênero artístico forte no Uruguai, tem a ver com a necessidade de nos conectar com esse país maravilhoso com o qual temos muita vontade de nos integrar.

P. Do que trata o templadismo, espécie de estética musical do rio da Prata, que inclui o Rio Grande do Sul, sobre o qual você teorizou?

R. Li Tropicália, do Caetano Veloso, em que ele diz que o Brasil é quase uma ilha, um país-continente que está de costas para o resto da América do Sul. Lendo o livro, entrei em contato com o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. E sou um admirador do Caetano, do Gilberto Gil, do João Gilberto, do Djavan e de outros músicos brasileiros. Aí, comecei a observar a bacia do Prata e aquele país pequeno e artificial, o Uruguai, que surgiu por um acordo político depois de ter sido parte do Brasil e também da Argentina, em diferentes momentos de sua história. Eu cruzava a fronteira para o Rio Grande do Sul e ouvia milongas, tomava chimarrão e comia churrasco. Ia para a Argentina, que tem semelhanças muito grandes com o Uruguai. Comecei a tratar de encontrar a causa dessa comunhão de identidade e a olhar a paisagem, no sentido amplo da palavra (visual, topográfica, climática, econômica etc). Me dei conta de uma estética comum aos três países. Ao princípio, era uma piada de amigos: “Somos templadistas, porque blá, blá, blá…”. Depois tive de começar a pensar seriamente a esse respeito e escrevi algumas coisas. Essa história começou em 2002 e ainda muita viva e dinâmica, gerando debates principalmente no Rio Grande do Sul.

P. No Brasil, fora do Rio Grande do Sul, há quem possa achar que se trata de reforçar um discurso separatista.

R. Sempre me encontro com um separatista quando vou ao Rio Grande do Sul e falo para ele: “Cara, vem morar um tempo no Uruguai e você vai saber o que é morar num pequeno país independente”. Tenho uma visão muito crítica da independência do Uruguai. Acho que José Artigas nunca quis um país independente, e sim o federalismo. É um país que está parado nas portas da bacia do Prata, uma das maiores e mais ricas do mundo, separado do resto. Isso é um erro histórico. Acho que a chave para entender a proposta é o Manifesto Antropofágico, que surgiu em São Paulo. Minha visão dotempladismo é aberta, de integração. Ter uma atitude aberta e não ficar camaleonicamente tentando reproduzir os estereótipos que vêm de fora.

P. Você é de Montevidéu, uma cidade portuária em que há pessoas chegando de vários lugares. Isso influencia essa sua visão?

R. Com certeza. Tive a benção de meu pai cair numa cidade aberta ao mar. Montevidéu, para a bacia do Prata, é quase como Liverpool para a Inglaterra – onde todo o tempo tem movimentação de gente chegando. O próprio jeito de ser do Uruguai sempre foi anarquista. De pessoas que fugiam da Inquisição, que ficava longe do Rio de Janeiro e também de Lima, sede do poder Real. Uma coisa no meio do caminho. Até hoje, o país tem essa impronta muito forte.

P. Isso explica, em parte, a constante busca uruguaia por uma identidade própria?

R. Falei disso no livro e fui tratado de louco. Alguns até me consideraram um traidor – não de um jeito agressivo, porque no Uruguai tudo é muito suave. Não dá para entender a história do país como um fenômeno isolado. Se você tentar entender o movimento dacanção uruguaia sem entender o que acontecia ao mesmo tempo na Argentina e no Brasil, fica impossível. As pessoas dizem: “Estamos fazendo um esforço muito grande para entender a identidade uruguaia, propriamente, e você está falando que ela não existe”. Vai perguntar para um esquimó o que ele acha de uma música uruguaia e de uma argentina, e ele não vai encontrar nenhuma diferença.

P. Ainda assim, o Uruguai é referência hoje em dia por suas posições liberais em vários temas contemporâneos, como a liberação da maconha e do aborto, o casamento gay e a redução da maioridade penal. E não podemos esquecer a figura inspiradora do Mujica.

R. Tem uma questão de escala, sem dúvida. O Uruguai inteiro é um bairro de São Paulo. Somos 3,4 milhões de pessoas. Mas, além disso, tem uma coisa que está no genoma do uruguaio, que é o desejo de liberdade e a desconfiança do poder. Os gaúchos eram caras que fugiam de Buenos Aires e do Rio de Janeiro e nessa terra oriental encontravam um espaço onde a liberdade era total. Não tinha Inquisição, rei da Espanha, rei de Portugal, nem nada. Uma frase que Mujica utiliza muito é “ninguém é mais que ninguém”. Isso também leva a uma situação de anarquia, em que é difícil tomar decisões… Não existe um respeito pela autoridade. Essa vocação de vanguarda legislativa, que o Uruguai tem neste momento, não é nova para o país. Na primeira metade do século passado, isso já acontecia. Foi o segundo país no mundo em que as mulheres puderam votar, que fez a separação do Estado da Igreja, estabeleceu os direitos do trabalhador… O que o Mujica fez foi se conectar com essa tradição novamente. Do ponto de vista das liberdades individuais, o Uruguai está hoje entre os primeiros países do mundo. Esse é o maior orgulho que eu tenho do meu país.

(Publicado primeiro no El País Brasil)

Dia 23
setembro 2015

Sobre ‘Narcos’, Wagner Moura em espanhol e o espírito panamericano

Organograma do cartel de Medellín nos anos 80. / DIVULGAÇÃO (NETFLIX)

Organograma do cartel de Medellín nos anos 80. / DIVULGAÇÃO (NETFLIX)

Quando a Netflix, em seu afã de angariar assinantes na América Latina, decidiu produzir Narcos a série de que todo o mundo está falando –, não imaginava que atenderia uma velha demanda dos latino-americanos: ser unidos. Para o show escolheu, não à toa, Pablo Escobar, colombiano célebre e o maior mafioso da região (e além), abatido em 1993 levando consigo o onipotente cartel de Medellín, e assim acertou o alvo de um câncer regional: a fundação da indústria do narcotráfico na América Latina, promovida por uma loucura criminosa e também pela política dos Estados Unidos de combater a oferta das drogas esquecendo sua demanda. Doença, essa, que segue ativa nos dias atuais, em que os traficantes ainda são perseguidos e os usuários, ignorados.

Netflix fez o óbvio, que, no entanto, ninguém tinha se atrevido a fazer: uma superprodução latino-americana de cabo a rabo. Tem produção executiva de José Padilha– cineasta promovido no mercado global do audiovisual depois do sucesso generalizado de Tropa de Elite e de filmes feitos por ele em Hollywood, como Robocop –, quem dirigiu dois dos dez episódios da primeira temporada. No papel principal, conta com Wagner Moura, outro talento brasileiro reconhecível fora do país por seu papel no mesmoTropa de Elite, atuando aqui em espanhol, num ato de coragem e qualidade artística que poucos atores ousariam encarar.

Ao redor de Moura, encarna narcotraficantes, policiais, políticos e demais vítimas e vitimários desse conflito um elenco formado por colombianos (em sua maioria), mexicanos, argentinos, chilenos e outros. É uma assinatura panamericana que se repete na equipe técnica, combinando, por exemplo, roteiristas norte-americanos (Chris Brancato, Carlo Bernard e Doug Miro) com um diretor colombiano (Andrés Baiz), um mexicano (Guillermo Navarro) e outro brasileiro (Fernando Coimbra, que fez o ótimo longa-metragem O lobo atrás da porta), além de Padilha. A produção, original da empresa, é uma perfeita Babel – mas, desta vez, a Babel é nossa.

Ainda por cima, a série agrada. Bem feita, do texto à edição, Narcosinjeta ação nas veias do espectador, sem esquecer as altas doses de drama – que quem põe, claro, é a Colômbia. Não é absurdo, apesar de estarmos diante de um produto de entretenimento, dar-se conta de que é uma história que faz muita gente chorar diante da tela da tevê, do tablet ou do computador. São pujantes e ultrajantes a matança, as esperanças podadas na raiz e a busca cega de um país por uma possibilidade de futuro em meio ao caos violento. Violência, essa, que se traduz em milhares de vidas descartadas como se fossem lixo, no ataque patrocinado de uma guerrilha ao Palácio de Justiça de Bogotá, em um avião comercial rumo a Cali que é explodido no céu para derrubar um candidato presidencial, em um sistema de recompensas para matar policiais ao qual aderiu todo cidadão pobre que decidia romper a última barreira da ética em troca de dinheiro. Tudo isso, conforme a história relata, promovido pelo cartel de Pablo Escobar.

Quem era, afinal, esse cara? Um líder, sem dúvida, tanto na carreira meteórica e milionária na indústria narcótica que ele mesmo fundou, como nas ações que promoveu para tapar a sangria de gente miserável que ele atendia com casas populares e notas de dinheiro vivo, assim como usava para cometer crimes – e que o idolatra até os dias atuais. Um assassino frio e tão egocêntrico que não se contentava com o poder do tráfico, sonhando acordado em ser presidente do país que ele (paradoxalmente) amava.

Muitas pessoas – hispânicos, especialmente colombianos, mas brasileiros também – torceram o nariz para o sotaque de Wagner Moura ao falar o espanhol de Medellín, mas o que o ator entrega, mais do que diálogos que o expliquem, é na verdade um anti-herói altamente reflexivo. O espectador vê quem é Pablo Escobar ao sentir as fisgadas que ele sente no estômago: nos longos segundos em que ele reage, em silêncio ainda que colérico, a um revés na sua guerra pessoal para adentrar a política colombiana, ou com sorrisos e breves comentários bem-humorados quando saboreava alguma vitória. Sem falar no fato de que a Babel de Narcos inclui – além do cantado de Moura, superado (pelo espectador ou talvez pelo próprio ator) lá pelo terceiro episódio – os vários sotaques do elenco estrangeiro, ao qual custou trabalho generalizado atuar em paisa.

Quem nasceu na Colômbia sabe exatamente o que significa a expressão dolor de patria. É se afastar dela o suficiente para enxergar a desgraça nacional indo além da rotina cotidiana que acostuma todos a tudo, inclusive ao absurdo da violência. Para assistir a Narcos e sentir algo parecido, é preciso ser colombiano ou conhecer a Colômbia um pouco mais de perto – para então olhá-la de longe. Quem era capaz de fazer isso, sendo brasileiro, mexicano, argentino… antes de Narcos? Pouquíssimos. Porque, ao nível das massas, é principalmente a imprensa, com suas manchetes, quem tem se encarregado de nos contar que são os nossos vizinhos. Mesmo sem ser ingênuos achando que por trás de tudo há uma boa intenção, não há engano em falar que graças a uma história como essa, que promove um star system latino sem excluir o Brasil da equação, somos um pouco mais unidos. A dor de pátria colombiana pode ser, finalmente, mais latino-americana.

(Publicado no El País Brasil)

Dia 18
maio 2015

Brasil aspira a ser a ‘nova Espanha’ do cinema latino-americano

'Ixcanul', filme do guatemalteco Jayro Bustamante que foi destaque no Festival de Berlim.

'Ixcanul', filme do guatemalteco Jayro Bustamante que foi destaque no Festival de Berlim.

O Brasil desistiu de carregar o estigma de país que dá as costas para a vizinhança – ao menos pelo que indicam suas novas políticas de cinema. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) acaba de anunciar uma linha de coprodução exclusiva dentro do Programa Brasil de Todas as Telas, que viabiliza o investimento de cinco milhões de reais do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para filmes produzidos em parceria com países latino-americanos.

A novidade – pré-anunciada em dezembro no último Ventana Sur, o principal mercado cinematográfico voltado para a região, e divulgada agora, durante o Festival de Cannes – é recebida com empolgação do México à Argentina, que veem no Brasil uma “nova Espanha”. Tradicionais sócios culturais da América hispânica, os espanhóis vêm diminuindo seus investimentos em audiovisual desde o estouro da crise econômica em 2008, deixando um buraco financeiro na inegável evolução qualitativa do cinema latino.

Por um lado, os brasileiros desejam preenchê-lo, aproveitando para “promover a presença do cinema brasileiro no mercado externo”, nas palavras de Manoel Rangel. “As parcerias entre produtoras brasileiras e de outros países enriquecem o mercado, permitindo o intercâmbio profissional”, diz o diretor da Ancine. O novo edital contemplará obras de ficção e documentários em que o Brasil é o coprodutor minoritário e que receberão, respectivamente, 250.000 e 175.000 reais, no máximo, por projeto. O investimento, como todas as linhas de fluxo contínuo (permanentemente abertas) do FSA, não será a fundo perdido, o que significa que parte da receita líquida do produtor será retida, retornando ao fundo em caso de lucro.

A iniciativa encontra eco entre profissionais do setor como Vânia Cattani, à frente da Bananeira Filmes, uma das produtoras nacionais com maior experiência em coproduções latino-americanas. “Ao contrário de nós, a maioria dos países da América Latina contam com poucos recursos para seus filmes, então esses são valores representativos. Com a crise, a Espanha deixou de ser para eles o player que era, e nós somos mesmo o gigante da região. Temos muito a ganhar com isso”, afirma a carioca que coproduz atualmente, com mais recursos que o outro coprodutor, Pedro Almodóvar, Zama, o mais recente trabalho da argentina Lucrecia Martel (O pântano e A menina santa) – um dos maiores talentos do cinema argentino e da América Latina hoje.

Um dos cuidados que toma esse edital é separar os países latino-americanos em grupos, de acordo com suas características econômico-estruturais. Países como Bolívia, Costa Rica, Paraguai e Guatemala, com poucos (ou nenhum) respaldos estatais para o cinema, têm garantida uma fatia maior do bolo de cinco milhões, enquanto Argentina e México, os que mais ativamente produzem na região e com mais recursos, operarão dentro de uma fatia menor.

Na opinião do consultor internacional da Ancine, Eduardo Valente, essa lógica privilegia aqueles que dependem muito de fundos internacionais. “É uma questão estratégica. Favoreceremos os países que mais precisam de aportes financeiros, mas que produzem com qualidade também. É o caso de Ixcanul, filme do guatemalteco Jayro Bustamante que foi destaque no último Festival de Berlim”. Valente acredita que subir a bordo de projetos assim projetará o Brasil de maneira qualificada no circuito cinematográfico internacional.

Por outro lado, se o país virar de fato um grande sócio latino-americano, quem se beneficia é o espectador. A expectativa é que esses filmes passem a circular muito mais em salas comerciais brasileiras, que hoje exibem com o merecido cuidado quase que só os blockbusters argentinos. “Se forem observadas as estatísticas que computamos até 2013, é possível notar que, com exceção da Argentina, nossa variedade de coprodução com a América Latina é pouco representativa. Essa nova linha pode ser revolucionária em sua capacidade de mudar esse panorama”, afirma Valente.

(Artigo publicado no El País Brasil).

Dia 15
maio 2015

Duas ou três coisas que o cinema argentino pode ensinar ao brasileiro

Kuschevatzky, preparado para a transmissão do Oscar. / TNT

Kuschevatzky, preparado para a transmissão do Oscar. / TNT

“O cinema argentino dá de dez no brasileiro por causa do roteiro…”, ouve-se o tempo todo por aqui. E por que esta leitura, quando se compara a sétima arte dos dois países? Uma das marcas da cinematografia argentina contemporânea é saber contar muito bem uma história. Mas há outros fatores por trás do sucesso que os filmes produzidos na Argentina nos últimos anos têm alcançado dentro e fora do país e que, assim como o talento dos roteiristas, podem inspirar o cinema do Brasil.

Basta analisar o sucesso de um jovem produtor de Buenos Aires que está ajudando a escrever a história recente do cinema no país vizinho e que recentemente emplacou dois longas-metragens na disputada lista de finalistas ao Oscar estrangeiro. Axel Kuschevatzky, 43 anos, ergueu a estatueta da Academia logo na sua estreia como produtor cinematográfico, em O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella, em 2010. Quase repetiu o feito este ano, com a indicação de Relatos selvagens, de Damián Szifrón.

Ambas são boas produções de sucesso que provam que a Argentina entrou definitivamente no radar de Hollywood. “Se você pensar, são filmes de gênero com um forte olhar autoral. São massivos, mas revelam um código, despertam interesse… Enfim, têm algo a dizer”, diz Kuschevatzky. Será casualidade que os dois chegaram tanto aos Oscar como à casa do vizinho? “Não acredito em casualidades. Há uma combinação de fatores, do talento dos diretores à estratégia de lançamento. Por trás de ambos, há uma força criativa e também estratégica.” Criatividade e viabilidade comercial, algo a se ter em mente no Brasil também.

Sobre a fama do roteiro argentino no Brasil, esse profissional tão polivalente é rápido em afirmar que “nada é mais importante do que a narrativa”. Mas não se resume a entoar a mesma cantiga de sempre. “O Brasil deve continuar construindo seu próprio estilo narrativo, cuidar de sua tradição cinematográfica e tentar forjar, junto com os vizinhos latino-americanos, um star system próprio, com artistas como Ricardo Darín, Rodrigo Santoro, Alice Braga e outros…”, opina. Sempre bom lembrar, afinal, que o cinema é uma arte coletiva.

Mesmo casado com a telona, Kuschevatzky se relaciona também, e muito, com a televisão. Atua há anos na Telefé, do grupo Telefónica, onde conduziu alguns programas e também descobriu a fórmula de adaptar para a realidade argentina o conceito norte-americano dos sitcoms. Escreveu roteiros para as séries La niñera, Casados con hijos, ¿Quién es el jefe?, e com isso estampou uma marca na telinha também. “O cinema tem a vantagem de permanecer no tempo, enquanto a TV é mais efêmera. Mas é impressionante a capacidade da televisão de se conectar com o espectador. São diferentes ferramentas, que oferecem aprendizagem”. Assim, na guerra entre o cinema comercial e o autoral, a Argentina tem optado pelo caminho do meio, respeitando as massas e se aproximando delas.

Profecia do sucesso

Em uma elogiosa entrevista publicada às portas do Oscar 2015, o jornal argentino La Nación afirmou que Kuschevatzky “hoje goza do prestígio de ser um dos produtores mais bem-sucedidos da Argentina”. E foi exatamente Campanella, o diretor argentino de maior carreira internacional, quem viu nele a veia para a produção. “Você daria um ótimo produtor”, profetizou o homem por trás tanto de Segredo dos seus olhos, como de O filho da noiva. E não estava errado, como comprovam não só os sucessos já citados, mas filmes a que ele esteve associado e que foram muito bem, obrigado, tanto em repercussão como em bilheteria. Dois exemplos são a comédia Um conto chinês (que arrecadou na Argentina 4,4 milhões de dólares e foi amplamente distribuída no exterior) e a animação Um time show de bola (que fez quase 110.000 espectadores no país só no dia de estreia), ambas vencedoras nos prêmios Goya de 2011 e 2014.

“Esses elogios são completamente exagerados. Desde 1995, há uma tradição de cineastas argentinos em constante produção. Essa constância é o que possibilitou que hoje exista uma produção bem-sucedida no país, e eu apenas faço parte dessa geração”, explica. Sobre o empurrão de Campanella, ele admite que “mudou minha vida” e conclui que “não tem mais do que agradecer” ao “amigo de muitos anos e narrador incrível que ele é”. A primeira lição de Axel, portanto, é a humildade.

Mas é preciso investigar seu passado para encontrar mais que isso. Sua relação com a sétima arte vem de casa e, talvez por isso, seja visceral. “Todos na minha família sempre gostaram de ver filmes. O cinema é uma das coisas que mais amo na vida. Gosto de tudo, só que dos filmes bons um pouco mais do que dos ruins”, ele conta. Tanto é assim, que – mais jovem ainda, porém já cinéfilo – participou de um quiz televisivo sobre cinema e ganhou. O prêmio era em dinheiro, e com ele Axel fundou sua própria revista de cinema, La cosa cine, publicada regularmente há 20 anos. “O cinema me capturou”.

A se julgar por mais um papel que Axel Kuschevatzky desempenha no mundo do cinema – o de apresentador da cerimônia do Oscar para o canal TNT, entrevistando estrelas do tapete vermelho para a América Latina há 11 anos –, a diversão também é importante. “Me divirto muito. É uma hora ao vivo, e me preparo lendo e vendo tudo sobre os indicados”. Isso sim, sem puxa-saquismo ou preconceitos. “Lembro do ano em que O segredo de seus olhos ganhou. Muitos faziam as perguntas a mim, sobre meu filme”, contou ao La Nación.

(Artigo publicado no El País Brasil)

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