VEM AÍ

  • O QUÊ: Festival de Cinema de Cannes
  • Ano: 2012
  • Quando: de 16 a 27 de maio
  • Onde: Na Riviera Francesa e no www.festival-cannes.fr
  • Por quê: É considerado o Oscar do mercado cinematográfico e importante vitrine do cinema autoral.
  • Mais: o festival este ano tem boa representação de filmes latino-americanos.

Conheça os títulos latinos selecionados para a 65 edição.

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Dia 11
abril 2011

BAFICI: Boas novas do cinema chileno

Cena do incrível "Nostalgia da luz", doc de Patricio Guzmán

Cena do incrível "Nostalgia da luz", doc de Patricio Guzmán

O cinema feito no Chile, segundo comentou em entrevista ao La Latina o diretor do BAFICI, Sergio Wolf, “ainda está construindo sua plataforma de cineastas e buscando definir seu estilo e construir sua indústria”, porém, “tem chamado atenção” com bons filmes.

De fato, no últimos anos, o país marcou presença no festival portenho com as últimas novidades de sua produção independente. Três foram os filmes chilenos que vi em Buenos Aires, e todos são dignos de recomendação.

Abaixo, um rápido resumo de cada um pode ser uma boa dica aos interessados.

“Música campesina”, de Alberto Fuguet

Seção: Cinema of the future

Jornalista de formação, Alberto Fuguet é bastante conhecido no Chile (e no contexto cultural latino-americano, goza de certa fama também) por seus livros, entre eles “Mala onda” (1991) e “Las películas de mi vida” (2002), que passam tanto pela ficção, como pelas crônicas jornalísticas e pelos relatos pessoais… Quase que “de tudo, um pouco”, sempre em apostando em um tom narrativo (mesmo nos casos de não ficção). Há alguns anos, Fuguet marca presença também no cinema, com longas como “Se arrienda” (2005) e “Velódromo” (2010), que estreou ano passado no BAFICI. Este ano, ele esteve no festival argentino com a estreia de sua última produção, “Música campesina”, que revela várias faces de seu talento. É uma espécie de “walk-movie” (em alusão aos road movies), protagonizado pelo talentoso ator chileno Pablo Cerda, quem vive o “mochileiro” Alejandro Tazo. Tazo é um estrangeiro (um “suramericano”, como ele gosta de se apresentar) nos Estados Unidos, terra a que chegou por amor a uma mulher e de onde vai sair com (mais) amor por si mesmo. Seu destino é a improvável (para um jovem viajante chileno) Nashville, terra da música country, onde ele vive na pele as durezas e as doses de inspiração que presenteiam a peculiar condição de ser estrangeiro. A história, leve, sensível, filmada à altura de sua personalidade independente, sem pretensões clássicas ou de ser pop, é contada com ótimos diálogos – momentos em que o espectador se sente bem próximo de Alejandro, esse chileno algo ingênuo, charmoso e cativante. Exatamente na medida do filme, que, por sinal é uma rara co-produção Chile-Estados Unidos.

“Post Mortem”, de Pablo Larraín

Seção: Panorama

Já se disse que Pablo Larraín (conhecido por “Tony Manero”, filme feito em co-produção com o Brasil) representa um novo momento do cinema chileno, em que “desaparecem os tabus do politicamente correto”. Há um enorme valor nisso, especialmente porque se os desaparecidos são o tema-obsessão dos filmes do cinema argentino recente, o golpe de 73 é o dos chilenos. Os filmes de Larraín de fato oferecem imagens inesquecíveis, resultado de um ponto de vista no mínimo “curioso” e “esquisito” daqueles fatos. Basta lembrar de “Tony Manero”, onde um imitador profissional do protagonista de “Embalos de um sábado à noite” – ciumento, além de absolutamente peculiar – termina cometendo um terrível assassinato. E isso com os turbulentos acontecimentos políticos dos anos 70 como pano-de-fundo. Em “Post Mortem”, ficando apenas no terreno das imagens inesquecíveis, o protagonista Mario (vivido pelo mesmo ator que faz Tony, o incrível Alfredo Castro) é um assistente de um médico legista, algo alheio ao trabalho, mas cheio de (outras) obsessões. Enquanto persegue sua esquisita vizinha, Mario é testemunha, nos últimos dias anteriores ao golpe de Pinochet, à dissecação do cadáver de ninguém menos que Salvador Allende. Para dizer pouco, fica cravada na memória do espectador a cena em que uma fila de militares (que “invadiram” o centro de medicina legal) assiste à análise do médico responsável pelo procedimento, quem narra suas conclusões sobre as causas da morte de Allende enquanto observa seu cérebro aberto. “O disparo pode ter sido produzido pela própria vitima”, finaliza e só então dá o nome do dono do corpo que está analisando. Certamente, um ângulo nada explorado até então… Vale comentar que “Post Mortem” também é uma co-produção, desta vez com México e Alemanha.

Cabe dizer que o filme foi eleito o melhor ibero-americano da recém-terminada edição 26 do Festival de Guadalajara (leia aqui).

“Nostalgia de la luz”, de Patricio Guzmán

Seção: Careers

Tenho receios de falar desse incrível documentário de Patricio Guzmán, provavelmente o cineasta chileno de maior fama internacional (graças à sua trilogia “A batalha do Chile”). Muito já se falou sobre o filme, então talvez não seja mesmo importante. Sendo assim, meu registro fica ainda mais pessoal. O primeiro que vêm à mente depois de ver o filme é: só alguém tão poético e ao mesmo tempo politicamente engajado como Guzmán poderia ser capaz de juntar as estrelas do absurdo céu do deserto do Atacama aos rastros arqueológicos que existem em seu solo (entre os quais jazem, esquecidos, corpos de pessoas assassinadas e desaparecidas pela ditadura de Pinochet). O filme colhe depoimentos tocantes de diferentes e belos personagens, todos deixando transparecer um envolvente “conhecimento de causa” sobre aquilo que estão discursando. O mais-mais desse doc, para mim, é sem dúvida o momento em que Guzmán (quem narra tudo em voz off) conversa com as mulheres de Calama, pessoas comuns em constante busca dos corpos desaparecidos por Pinochet. São elas, em geral esposas e irmãs desses “corpos”, que fazem o elo entre as estrelas e os ossos, as duas perfeitas encarnações terráqueas do passado. É uma busca insistente, que já dura 28 anos nas pampas do maior deserto, alimentada por uma infinita esperança e por ânsias de justiça. Só Guzmán para encarar com tanta maestria um tema tão urgente e, ironicamente, tão esquecido.

Camila Moraes, de Buenos Aires

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