NÃO PERCA

  • O QUÊ: Série "Fronteras" - 8 directores cruzando límites
  • Ano: 2011
  • Quando: desde dezembro
  • Onde: No site da TNT
  • Por quê: Para conhecer diferentes lugares do mundo através do olhar de novo consagrados diretores latino-americanos - incluindo a peruana Claudia Llosa, cujo "Loxoro" será apresentado em fevereiro no Festival de Berlim.
  • Mais: Um projeto da TNT apresentado pelo cineasta argentino Juan José Campanella.

Acesse o site e assista aos episódios de 30 min.

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Dia 24
janeiro 2012

Juan de los muertos: o fim do mundo começou em Cuba

Sem megaupload, o jeito é torcer para alguém trazer os zumbis cubanos às salas brasileiras

Sem megaupload, o jeito é torcer para alguém trazer os zumbis cubanos às salas brasileiras

Em tempos de zumbis em alta, um filme desponta no cenário do cinema cubano, tão pouco ligado aos gêneros – ou, isso, a gente imagina. O ponto é que, se é para dedicar tempo a vampiros e mortos vivos – que o filme seja B (e latino-americano, por que não?). Ou, isso, digo eu.

“Juan de los muertos” é o nome da história. Dirigido por Alejandro Brugués, jovem, porém experimentado cineasta nascido em Buenos Aires e cubano de nacionalidade, o filme foi apresentado ao público brasileiro durante o último Festival do Rio, onde, por sinal, foi bastante aplaudido.

A sinopse: Juan, um pescador de quinquilharias, sobreviveu a inúmeras crises cubanas e continua achando que sua ilha é um paraíso. Surpreendido por um ataque de zumbis (que o governo se esforçou em esconder, até que perdeu controle da situação), ele enxerga a oportunidade de ser patriota – eliminando os tais “dissidentes” e ainda embolsar uma grana. “Juan de los muertos, mato a sus entes queridos, en qué le puedo ayudar?”, diz ao atender ligações ao telefone.

Sem falar em boa fotografia e atuação competente, o longa ganha pontos com a tiração de sarro da política internacional, do embargo estadunidense e do cotidiano da ilha de Fidel. Se o tema é a moda dos zumbis, como uma metáfora do fim do mundo – e da fragilidade da moral humana diante disso –, nada mais interessante que situar essa crise em Cuba (e nos personagens que lutaram por ela, contra ela e os que ficaram no “meio” dela).

E, comentários estendidos, é de chamar a atenção a onda de filmes de terror, suspense e afins que anda tomando conta de algumas cinematografias da região. Basta reparar no Peru e no sucesso que os filmes nacionais desses gêneros conseguem em termos de público (um caso recente é este aqui). Para que não digam que o cinema latino-americano não se esforça por maiores bilheterias.

Por Camila Moraes

Dia 23
janeiro 2012

Sundance, Rotterdam e Berlim; e o cinema latino saúda 2012

O cineasta Cao Hamburger entre os atores de "Xingú"

O cineasta Cao Hamburger entre os atores de "Xingú"

O cinema latino-americano vive a fase mais agitada de sua agenda anual no primeiro semestre. Grandes lançamentos, que serão pautados por festivais afora ao longo de 2012, são os que disputaram (e conseguiram) vaga nos principais festivais do período – Sundance, Rotterdam, Berlim, Cannes. Enquanto os novos títulos se apresentam, “sucessos” de 2011 arriscam prêmios em vitrines mais comerciais (como o Oscar) ou então se preparam para entrar em cartaz.

É, portanto, um bom momento para os interessados (mesmo sem nenhum candidato latino-americano na sub-lista de concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro, algo sempre muito bem-vindo). Títulos importantes, novos talentos e diretores já consagrados e muito filme para ver vêm aí.

Analisando seleções dos três principais eventos de janeiro e fevereiro – Sundance, Rotterdam e Berlim –, chama a atenção a preponderância de filmes brasileiros, argentinos e chilenos nas principais competições e seções alternativas. Vamos aos festivais…

O calendário começou com Sundance na última quinta-feira, dia 19, com importante presença latina na competição principal de ficção. São quatro filmes selecionados, um brasileiro, argentino e dois chilenos: “A cadeira do Pai”, do brasileiro Luciano Moura, “El último Elvis”, do argentino Armando Bo, “Violeta se fue a los cielos”, do chileno Andrés Wood (coprodução com Argentina, Brasil e Espanha), e “Joven y alocada”, da chilena Marialy Rivas. Na seção de docs, no entanto, nenhum latino. O festival termina dia 29, quando anunciará seus prêmios – ano passado, o único latino-americano premiado foi o colombiano Diego Jiménez, por melhor fotografia, pelo filme “Todos tus muertos”, de Carlos Moreno.

Em seguida vem o Festival de Rotterdam, de 25 de janeiro a 5 de fevereiro, com ótimas notícias. De todas as seções do festival, todas de olho na América Latina, a de maior destaque é a Tiger Awards, que premia primeiros ou segundos filmes de cinematografias periféricas. Dela, participam este ano três latinos – dois brasileiros e um chileno: “O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho, e “Sudoeste”, de Eduardo Nunes, e “De jueves a domingo”, de Dominga Sotomayor. A seção Bright Future, dedicada a talentos com carreiras em desenvolvimento, conta com outros 11 títulos da região (entre eles, quatro brasileiros, dois argentinos, um chileno), sendo duas estreias mundiais: o argentino “A la Cantábrica”, de Ezequiel Erriquez, e o colombiano “Corta”, de Felipe Guerrero.

E, antes do burburinho de Cannes, tem ainda o Festival de Berlim (9 a 19 de fevereiro), que ainda não anunciou sua seleção completa, mas que traz na seção Panorama o aguardado novo filme do cineasta brasileiro Cao Hamburger, “Xingú”, que abriu ano passado o Amazonas Film Festival. Entre os curtas-metragens selecionados pelo evento, 27 no total, cinco são latino-americanos: “Licuri Surf”, do brasileiro Guile Martins, “La Santa”, do chileno Mauricio López Fernández, e “A Mulher Chamada Yssabeau”, da mexicana Rosanan Cuellar.

Além deles, concorrerão “Nostalgia”, do venezuelano Gustavo Rodnón Córdov, e o “Loxoro”, uma coprodução hispano-argentina-peruana, da peruana Claudia Llosa, que com “La teta assustada” venceu a edição de 2009 do festival alemão.

Em Berlim, tem ainda as competições Generation Kplus e Generation 14plus, destinadas ao público infantil e adolescente, onde participam os longas “Nosilatiaj”, da argentina Daniela Seggiaro, “Una noche”, da cubana Lucy Mulloy, e a parceria entre Bolívia e México, “Pacha”, de Héctor Ferreiro. E ainda o curta brasileiro “L”, de Thais Fujinaga, o mexicano “Un mundo secreto”, de Gabriel Mariño, e o chileno “Joven & alocada”, de Marialy Rivas.

Ufa! O ano começou.

Dia 23
janeiro 2012

De vuelta!

A culpa não é dos maias

A culpa não é dos maias

Depois de um longo período de férias, La Latina está de volta – e sem medo do fim do mundo. Disfrutem ;)

Dia 12
dezembro 2011

CURTAS II: pinceladas de cinema latino

:: Cinema brasileiro multipremiado em Havana

Terminou ontem, 11 de dezembro, a 33a edição do Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana, Cuba. O evento, que fecha 2011 com um resumo do melhor do cinema latino do ano, premiou vários filmes brasileiros, incluindo as animações “Céu, inferno e outras partes do corpo”, de Rodrigo John (assista o trailer acima), e “Furico e Fiofó”, de Fernando Miller; o documentário “Diário de uma busca”, de Flávia Castro, e as primeiras obras em ficção “Sudoeste”, de Eduardo Nunes, “Trabalhar cansa”, de Juliana Rojas e Marco Dutra, “Remoinho”, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.; além de dois curtas e oito longas de ficção de diretores veteranos. Veja a lista completa de premiados aqui.

:: Lançam livro sobre mecanismo de financiamento audiovisual

O Latin American Training Center, centro de capacitação regional, lançou no final de novembro, no Rio de Janeiro, o livro “Mecanismos Atuais de Financiamento de Conteúdos Audiovisuais na América Latina”, cuja missão é ajudar produtores a buscar financiamento para seus projetos através de fundos públicos e privados em meios tradicionais e alternativos. Os autores são 13 especialistas latino-americanos na área, e o conteúdo é apresentado na forma de artigos que descrevem os mecanismos de fomento disponíveis e os requisitos necessários para um ou outro. Para os interessados, o livro está disponível para download no site do LATC.

:: Cinema latino de volta à Sundance

Seguindo a tradição do calendário dos festivais internacionais de maior tradição, Sundance abre 2012 com uma ampla oferta de novos filmes independentes, incluindo, novamente, uma lista de candidatos latino-americanos. Quatro filmes latinos farão parte da competição principal de ficção, que acontece de 19 a 20 de janeiro, em Park City, Salt Lake City, Ogden y Sundance, cidades do estado de Utah, Estados Unidos. São eles: “A cadeira do Pai”, do brasileiro Luciano Moura, “El último Elvis”, do argentino Armando Bo, a coprodução entre Chile, Argentina, Brasil e España “Violeta se fue a los cielos”, de Andrés Wood, e “Joven y alocada”, da chilena Marialy Rivas. Ainda que a presença latina seja novamente representativa entre as ficções, nenhum documentário da região foi selecionado. No ano passado, o único latino-americano premiado no evento foi o colombiano Diego Jiménez, pela fotografia do filme “Todos tus muertos”, de Carlos Moreno. Mais no site do festival.

Dia 28
novembro 2011

As dores do cinema latino

"El vuelco del cangrejo", retratando com delicadeza a violência na Colômbia

"El vuelco del cangrejo", retratando com delicadeza a violência na Colômbia

Se a América Latina fosse uma pessoa em terapia, e o cinema, o divã sobre o qual ela se deita para elaborar seus traumas, seria possível afirmar que, nos dias de hoje, a região é um paciente mais “em contato consigo mesmo”. Sem supor que a solução para todos os males passe pela psicologia, a metáfora aqui serve para dizer que o cinema latino-americano superou a fase de raiva e críticas desnorteadas e tornou-se capaz de elaborar melhor suas dores – as dores que cada país trata em seus filmes mais relevantes – como um ser humano em processo de entender melhor de onde vem para então vislumbrar novos caminhos.

Essa evolução, resultado de vários aspectos relacionados às experiências sociais, culturais e políticas de cada lugar, acontece como no consultório: de maneira sutil, perceptível só depois de se instalar. Saem os filmes nostálgicos, os que denunciam em primeiro plano nossa coleção de traumas (colonialismo, ditaduras, corrupção, crises, entre tantos outros), e entram as histórias cotidianas, bastante pessoais e ainda assim políticas, porém não didáticas. Como já sintetizou a crítica norte-americana B. Ruby Rich, entre cujas áreas de interesse está o cinema latino: “From the revolutionary to the revelatory” (do revolucionário ao revelador).
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Dia 22
novembro 2011

Entrevista: Chile está acordando de um sono de 40 anos, diz cineasta Miguel Littin

Miguel Littín

Miguel Littín

Por Camila Moraes para o site Opera Mundi

Uma marmota que despertou de um sono de 40 anos. Essa é a visão do cineasta Miguel Littin sobre a atual conjuntura política no Chile. “As manifestações que estão acontecendo no país é o que houve de mais importante no Chile neste século e no anterior”.

Quando se pensa em cinema chileno contemporâneo, é comum concluir que, cada vez mais, muitos realizadores optam por abordar em suas obras o espinhoso tema da ditadura do general Augusto Pinochet – uma das mais sangrentas e duradouras da América Latina. Disso, filmes dos reconhecidos Andrés Wood (“Machuca”, “Violeta”) e Pablo Larraín (“Post Mortem”) são exemplos claros da última década.

O veterano cineasta Miguel Littín, cujo filme mais recente – “Dawson Ilha 10” (2009), sobre a ilha onde o ditador chileno instalou um campo concentração para ex-ministros e funcionários do governo Allende – estreia dia 25 de novembro em cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, descorda da teoria. “O cinema chileno nunca abandonou sua linha”, ressalta o realizador do clássico “O chacal de Nahueltoro” (1970), lembrando que no cinema de seu país sempre esteve presente a recuperação da memória.

Quem tem a palavra é o diretor de “Acta general de Chile” (1986), filme realizado durante a ditadura, sob condições improváveis: Littín, exilado, se disfarçou para voltar ao Chile e filmar a repressão militar nas ruas de todo o país – incluindo cenas filmadas no Palácio de La Moneda, perto do gabinete de Pinochet. A experiência, inclusive, virou tema de um livro-reportagem do colombiano Gabriel García Márquez, que escreveu nos anos 80 “A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile”.

Sobre cinema, memória e política no Chile, Miguel Littín falou com exclusividade ao Opera Mundi. Confira a entrevista.

Como surgiu a ideia para fazer “Dawson Ilha 10”?

Esse é um filme que trata de temas que sempre dão voltas ao meu redor. Fazem parte da história do país e da minha, pessoal. Quando li “Ilha 10”, livro em que Sergio Bittar conta sua experiência como prisioneiro de Dawson e no qual se baseia o filme, fui cativado pela serenidade do relato e pela sobriedade com a qual se aborda um fato tão dramático como a existência de um campo de concentração ao qual o governo de Pinochet enviava presos políticos. Decidi investigar mais, visitar a ilha algumas vezes e, assim, nasceu “Dawson”.

Muitos filmes chilenos recentes têm explorado o tema da ditadura. A que você atribui essa reconstrução da memória através do cinema, que acontece no Chile como já aconteceu na Argentina, por exemplo?

Não se trata de uma corrente de hoje. O cinema chileno nunca perdeu a sua linha. Dos anos 60 em diante, a recuperação da memória sempre esteve presente nos filmes realizados no Chile. Felizmente, é uma tradição que se renova com realizadores como Andrés Wood e Pablo Larraín, mais ligados à ficção, documentais como “I love Pinochet” [2003], de Marcela Said, e outros exemplos.

A seu ver, que momento vive atualmente a sociedade chilena?

É como se estivesse despertando do sono de 40 anos de uma marmota. As manifestações que estão acontecendo no país é o que houve de mais importante no Chile neste século e no anterior. Não é apenas um movimento de jovens. A juventude nas ruas, apoiada por seus avós, pais, professores e cidadãos em geral, recebeu informação que foi passada de geração em geração e não reclamam só por eles, mas exigem o fim do Chile como paraíso do neoliberalismo. Ao lutar contra a educação privatizada, dizem: “Não queremos a educação de Pinochet”. Estão, na verdade, abrindo uma grande panela de repressão social e exigindo a transição não só das formas, o que lentamente se deu, mas também dos conteúdos herdados da ditadura.

Você já observa uma influência das manifestações no que se produz artisticamente e culturalmente no país?

Nesse momento, é mais interessante pensar o contrário: que influência há da arte nessas manifestações. E há muita. Nas ruas, as pessoas reivindicam Pablo Neruda, são criativas, se reinventam. Trataram no passado de formar uma geração de esquecidos, mas isso não aconteceu. A informação foi passada adiante, e a memória está viva. As duas coisas vão acontecer – arte nas ruas e as ruas na arte –, mas o que vejo agora é essa força criativa.

Como se deu a coprodução com o Brasil para a realização de “Dawson Ilha 10”?

Essa é a primeira coprodução que faço com o Brasil. Fui convidado a um seminário de cinema na Bahia [Cine Futuro - Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual] e lá conheci o Walter Lima, produtor do filme. Conversamos bastante sobre ideias e sentimentos comuns, e o acordo se deu, entre confiança e sedução. Considero esse modelo de produção uma saída importante que o cinema de conteúdo da América Latina tem para crescer e lutar contra filmes feitos só com fins de lucro. Não é compreensível que não exista um intercâmbio cultural que seria natural dentro de um mesmo continente.

O filme foi indicado ao Goya, pré-candidato estrangeiro ao Oscar e premiado no Festival de Roma. Que importância têm esses reconhecimentos, em sua opinião?

Um filme, como tudo o que faço, é algo para oferecer aos outros. Há dois lados dos prêmios, e o lado pessoal eu refuto totalmente. O aspecto importante é que eles servem para que o filme chegue ao público. Em Roma, por exemplo, “Dawson” foi aplaudido de pé pelos espectadores durante 15 minutos. Isso, sim, foi muito gratificante. Os festivais se converteram no refúgio do cinema de autor. Quando alguns diretores latino-americanos fizeram seus filmes nos anos 60 e 70, como foi meu caso com “O chacal de Nahueltoro”, não se pensava em festivais. Para nós, o mundo se projetava a partir da América Latina. Hoje, o momento é outro.

Você já tem um novo projeto cinematográfico em vista?

Sim. É uma ficção sobre a entrada de Salvador Allende no Palácio de la Moneda, com todos as honras institucionais de sua posse, e a saída de seu corpo, às duas da tarde do mesmo dia, coberto por uma manta boliviana. O que aconteceu entre esses dois momentos lá dentro? Será uma coprodução entre Chile, Venezuela, Argentina e talvez o Equador. A combinação de países sul-americanos é perfeita para o tema, porque Allende não é um nome, mas um sentimento que cobre a pele de todos nós. Algo vigente, que se presta a uma nova forma de valores humanos, longe do homem-objeto.

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