VEM AÍ

  • O QUÊ: Festival de Cinema de Cannes
  • Ano: 2012
  • Quando: de 16 a 27 de maio
  • Onde: Na Riviera Francesa e no www.festival-cannes.fr
  • Por quê: É considerado o Oscar do mercado cinematográfico e importante vitrine do cinema autoral.
  • Mais: o festival este ano tem boa representação de filmes latino-americanos.

Conheça os títulos latinos selecionados para a 65 edição.

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Dia 23
novembro 2010

Ricardo Darín dá a cara e (põe o corpo) pelo nosso cinema

Ricardo Darín

Ricardo Darín

Mesmo sendo uma das “caras visíveis” do cinema latino-americano, o ator argentino Ricardo Darín se absteve de presenciar a cerimônia do Oscar, em fevereiro desde ano, quando “O segredo de seus olhos” garantiu à Argentina sua segunda estatueta de melhor ficção estrangeira. No filme, ele repete a sucesso de sua parceria com o cineasta Juan José Campanella, que o dirigiu em “O filho da noiva” – trabalho que projetou Darín ao mundo em 2001.

O veterano ator de flamantes olhos azuis, nascido em Buenos Aires há 53 anos, com carreira hoje consagrada na televisão e no cinema de seu país, tem problema com as homenagens. No entanto, para a 5a edição da Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul, Darín abriu uma exceção. Ela tem a ver com o fato de ser, ele admite, uma “cara visível”. “Não considero que eu seja merecedor de tantos elogios. Mas acredito que os rostos conhecidos dos nossos cinemas devem ‘colocar o corpo’ e participar de iniciativas como essa. Por isso estou aqui, muito feliz e honrado”, declarou o ator na coletiva de imprensa da mostra. O evento o escolheu como homenageado em 2010 graças à sua participação em filmes que tratam temas relacionados aos Direitos Humanos.

Entre eles, está “Abutres” (ou “Carancho”, no título original), o último trabalho do talentoso cineasta argentino Pablo Trapero, que tem Darín no papel central. O filme aborda o submundo dos acidentes de trânsito em Buenos Aires, ao redor dos quais uma série de profissionais se amontoam para tirar proveito das vitimas que têm direito a indenizações de seguradoras. Como abutres ao redor de carne em decomposição. Segundo Darín, a questão é grave na Argentina, mas não tinha saído à luz antes de que Trapero a levasse ao cinema. “Com esse trabalho, descobri mais uma vez que o cinema é um veículo de grande comunicação, desde que contemos uma história com sinceridade”. Coisa que, para ele, Pablo Trapero faz com cada um de seus filmes. “É um diretor que sempre escolhe temas novos no cinema latino. Não só faz os filmes, como se envolve com o que faz, pisando realmente no terreno daquilo que fala”, diz, tratando de desviar de si os holofotes dos jornalistas.

Segundo o ator, “Abutres” contou com cerca de 700 mil espectadores nas salas comerciais da Argentina, além de ter viajado por vários festivais internacionais importantes, como o de Cannes, onde foi lançado (em competição oficial) em maio deste ano. Mas o prêmio mais significativo, conta o ator, é o fato de que o filme gerou uma grande mobilização em seu país, trazendo a “máfia” dos acidentes de trânsito à tona. “Hoje o governo está buscando regulamentar a situação para que as vítimas sejam as partes realmente indenizadas”, explica.

Cinema e Direitos Humanos

Para Ricardo Darín, a luta pelos Direitos Humanos encontra no cinema um espaço “natural”, que é capaz de tratá-los sem “desacreditá-los”. Nos períodos duros das nossas histórias, como foram as ditaduras, era muito arriscado falar do assunto. Com as aberturas políticas, o risco passou a ser esgotá-los, porque as discussões ficaram acaloradas. Quanto mais naturais sejamos, mais possibilidades temos de que as coisas sejam compreendidas, sem ferir”.

A violenta ditadura militar que causou estragos na Argentina de 1976 a 1983 reflete o amadurecimento da maneira de se tratar temas sensíveis como esse com armas tão sutis e poderosas como os filmes. Se no cinema argentino de poucas décadas atrás a ditadura era pintada de maneira direta, chegando a se esgotar, hoje ela é um tema de fundo, retratado de diferentes ângulos, opina Darín. Seja como for, ainda parece ser o foco principal da produção cinematográfica do país. “Acho normal que, depois de abertas as portas, haja uma reação intensa. A ditadura virou um ‘monotema’ no cinema nacional. Mas hoje há originalidade no enfoque, e filmes como ‘Kamtchaka’ mostram outros lados do problema, sem deixar de propor reflexão”, afirma, citando o filme dirigido por Marcelo Piñyero, que faz parte da 5a Mostra. Lançado em 2002, ele relata a fuga de uma família comum em anos de perseguição pela ditadura através do olhar de um menino.

Criatividade latina

“Acredito fazer parte de um movimento que tem um grande futuro pela frente”, diz Ricardo Darín sobre o atual cinema argentino. Para ele, não só a Argentina, mas a América Latina como um todo tem conquistado um espaço considerável no cinema mundial. O surgimento de bons diretores e roteiristas e a maneira de contar histórias de maneira simples e atraente são as principais razões que ele encontra para a crescente visibilidade do cinema da região. “Há um estilo narrativo em comum entre os países latino-americanos. Acho que não só temos histórias parecidas, como um mesmo sentido do humor. Uma certa vocação para a ironia e para rir de nós mesmos”, dispara.

Do sucesso alcançado pelo cinema latino em festivais e, em alguns casos, em bilheterias expressivas, surgem vários convites de produtores hollywoodianos, ávidos por adquirir os direitos de histórias locais para produzir os famosos “remakes”. Darín conta que “Abutres”, de Pablo Trapero, está cotado para ser refilmado em Hollywood, o que não o agrada muito. “Não gosto dos remakes. Existem por razões comerciais, mas na verdade revelam uma crise de ideias nos Estados Unidos. Eu jamais pensaria em fazer refazer ‘Taxi Driver’”.

Projetos

Filmar com Walter Salles, com quem tem um projeto em discussão, está entre as vontades de Ricardo Darín. O diretor brasileiro, que de fato tem relação próxima com o cinema argentino (ele co-produziu filmes como “Leonera” e “Nascido e criado”, de Pablo Trapero, e “Café dos Maestros”, de Miguel Kohan com participação de Gustavo Santaolalla), supera, por exemplo, Woody Allen entre os cineastas que Darín admira. “Gosto muito do Woody Allen, mas tenho alguns companheiros que já filmaram com ele, e parece que a experiência não foi muito fácil. Ele não dirige tanto os atores como se possa pensar, coisa com a que não concordo”, conta o ator. Ele diz preferir os diretores estreantes. “Sou, por definição, alguém que gosta de se arriscar com filmes de estreia. São desafios, mas valem muito a pena”.

De desafios, Darín realmente não tem medo. Lançado ao estrelado pela televisão argentina, na qual atuou como galã em várias novelas populares, ele diz ter perdido o medo do ridículo há muito tempo. O desprendimento, que lhe rendeu papéis bem variados especialmente no cinema, de onde não tem planos de sair tão cedo, vem da família. “Sou filho de atores, e meus pais sofriam com pouca estabilidade profissional. Isso me fez aceitar muitos trabalhos, que eu assumi seriamente, e aprender a me divertir com eles”, revela. É por tanta naturalidade e comprometimento que ele goza, na Argentina e inclusive no Brasil, de credibilidade e carisma. Algo que supera de longe a fama e as homenagens.

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