
É sobretudo pela distribuição e pelo efetivo acesso do público aos filmes que cinematografias fortes só se constroem com apoios e medidas de proteção por parte do Estado – e não simplesmente a partir de iniciativas individuais de realizadores que desejam (e conseguem) expressar suas visões artísticas.
A Argentina, um dos mercados de cinema mais produtivos da América Latina, ao lado do México e do Brasil, é um dos países que contam com instituições e leis que apóiam a produção nacional. Com suas medidas, o governo muitas vezes enfrenta acusação de atentar às leis de livre comércio.
Lucrecia Martel (“O pântano”, de 2001, e “A menina santa”, de 2004), atualmente um dos talentos mais sobressalentes do cinema argentino, publicou sua opinião sobre o tema no principal jornal do país, lançando a provocação: quem acredita que existe liberdade de mercado quando a disponibilidade de capital é tão restringida?
Vale a pena conferir na íntegra o artigo publicado originalmente em 6 de agosto de 2006 na seção “Opinião” do jornal La Nación, de Buenos Aires, e reproduzido por INFOR-MET e Reconquista-popular.
Petróleo
Alguém ainda acredita que venderam o petróleo porque éramos ineficientes?
Por Lucrecia Martel
Se nos esquecemos por um momento de que o cinema é, sobretudo, uma visão do mundo, veremos que, como qualquer indústria, sobrevivem os produtos de empresas com grandes concentração de capital, que dispõem de enormes somas de dinheiro, que são donas dos sistemas de distribuição e exibição – como é o caso das multisalas, que surgiram nos anos 90 e que têm amplo acesso à promoção televisiva.
Isso é para os que, quando se fala sobre cota de tela ou de subsídios para o cinema nacional, saem em defesa da vulnerável liberdade de mercado. Quem, com dois dedos à frente, acredita que existe liberdade de mercado quando a disponibilidade de capital é tão restringida? Ainda existe alguém que acredita que os serviços privatizados são agora melhores e mais baratos? Ou que vendemos nosso petróleo porque éramos ineficientes? Existe alguém que acredite, verdadeiramente, que uma medida de proteção à indústria argentina é um agravante à liberdade de mercado? Este país foi zona livre de comércio durante uma década. O resultado são 21 milhões de pobres.
O cinema argentino está protegido por subsídios e agora também o estará pela cota de tela, que teremos que ir melhorando.
Não está distante à aparição de centenas de técnicos, diretores, produtores, atores e filmes argentinos o diferencial de que em um país exista um Instituto de Cinema e uma Lei de Cinema. Existe vontade por parte do Estado de apoiar essa indústria. O cinema não é somente o resultado do esforço individual de expressão.
Em qualquer encontro internacional de cinema se destaca, sem espanto algum, que a indústria argentina está muito ativa em um país em que muitas indústrias estão em perigo. Não está ativa somente pelos dois ou três filmes argentinos que, felizmente, este ano superaram, ou pouco falta para que o façam, um milhão de espectadores, mas também porque há outros vinte filmes que esperam seu lançamento e outras tantas em produção.
No cinema se reproduz um fenômeno que conhecemos muito bem na Argentina: a contínua ameaça contra as pequenas e médias empresas, assim como contra o trabalho artesanal.
Acredito que os anos 90 tenham sido um grande espetáculo que mostrou como um Estado deixa de planejar o desenvolvimento do país e é arrasado por aqueles que detém o poder econômico. Qual é o benefício para um país com pequenas e médias empresas? Entre outras coisas, é que esse é o setor que mais reinveste, que registra menos evasão impositiva e que, proporcionalmente, mais recolhe impostos, o que está mais próximo aos conflitos da sociedade, o que se instala regionalmente, o que mais necessita de educação terceirizada e universitária para seu desenvolvimento e, por isso mesmo, o que mais tem interesse na educação pública.
O cinema argentino que compete agora internacionalmente é fruto de pequenas e médias empresas argentinas, formadas, em sua maioria, por filhos, netos, sobrinhos, filhos de amigos de muitos que lerão essa nota. Ainda não é um cinema exclusivamente nas mãos de duas ou três empresas vinculadas a grandes poderes financeiros ou com empresas multimídia. Por isso mesmo, é diverso em suas opiniões sobre o mundo e suas propostas estéticas, ainda que lhe falte incorporar mais setores sociais que possam se expresar. Nessa diversidade nem sempre é possível que surjam filmes massivos. O objetivo não é criar um cinema excluente: é próprio do que é diverso os diferentes alcances.
Com a cota de tela, o Estado abriu um terreno para que se desenvolva o cinema argentino. Esperamos que ele não se transforme em um bairro fechado.
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A cota de tela – ou cuota de pantalla– é, por definição, o estabelecimento por parte do Estado argentino de uma quantidade obrigatória de filmes nacionais por sala em um período determinado.
Mais informações sobre as atuais condições em que se desenvolve o cinema argentino podem ser encontradas no site do Istituto Nacional de Cine y Artes Visuales (INCAA): www.incaa.gov.ar.